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O Caçador de Pipas: aventura humana e proibida

Luiz Zanin Oricchio

19 Janeiro 2008 | 10h18

Agora que O Caçador de Pipas foi proibido no Afeganistão, completou-se o rol de qualidades necessárias para que seja um sucesso. O resto ele já tinha. História de crianças vivendo numa região conturbada do globo, e baseada em best seller de alguém de lá saído e devidamente abrigado nos Estados Unidos. Uma história de amor, guerra, intolerância – com a devida redenção em seu final. Faltava essa pitada de escândalo. Agora não falta nada.

Como as autoridades de Cabul não foram lá muito explícitas, cabe a cada espectador adivinhar os motivos da proibição no país em que o enredo se ambienta. Será a cena de estupro de uma criança por um bando de garotos? A adúltera apedrejada por ordem do Taleban? Ou a denúncia de preconceitos contra os hazara, uma etnia discriminada no Afeganistão? Provavelmente tudo isso deve ter contado na hora da proibição.

E, de fato, O Caçador de Pipas, pelo menos em seu enredo, fala de coisas bem pesadas. A história é contada em flash-back, por um dos seus personagens, já adulto, vivendo nos Estados Unidos. Como o livro, não se trata de uma autobiografia factual, mas de memórias mescladas a muita ficção, obra do escritor afegão Khaled Hosseini que vendeu mais de 8 milhões de exemplares em todo o mundo, 1 milhão somente no Brasil.

Essas histórias falam de dois garotinhos que brincam juntos na Cabul dos anos 70 – Amir (Zekiria Ebhahimi) e Hassan (Ahmad Khan Mahmoodzada). Hassan é filho de um empregado do pai de Amir, um liberal que será obrigado a fugir do país quando os soviéticos o invadirem, em 1979. Mas, antes disso, o filme, dirigido por Marc Forster (de Mais Estranho Que a Ficção e Em Busca da Terra do Nunca), irá se concentrar nessa amizade um tanto assimétrica. Um é filho da burguesia local; o outro, de um empregado da família. Um carece de iniciativa; o outro, tem essa qualidade até em excesso; um não parece muito fiel aos seus afetos; o outro parece disposto a tudo para honrar uma amizade. Estão aí armadas essas oposições para que, mais tarde, um deles, o que conseguiu escapar, se sinta obrigado a resgatar seu passado e pagar dívidas pendentes.

O Caçador de Pipas é aquele tipo de filme que tenta se equilibrar sobre dois pés. Num deles, os dramas pessoais, no caso, o das duas crianças com destinos diferentes, que foram unidas, um dia, por laços de amizade. O outro, o da História de um país dos mais conturbados, que sofre a invasão dos soviéticos e, em seguida, é submetido ao regime fundamentalista do Taleban. O olhar é duplo. Num primeiro momento, o da infância. No segundo, o do homem adulto, que vê em retrospecto tudo aquilo que aconteceu. E reflete, inclusive, sobre o que não experimentou, ao deixar seu país de nascença.

Marc Forster, bom diretor a julgar por seus trabalhos anteriores, poderia ter optado por soluções de maior sutileza. Mas, sabe-se lá por que (talvez por pressão dos produtores) resolveu injetar uma dose considerável de obviedades, que enfraquecem a obra. Não vamos nem falar nos russos ou nos talebans retratados como demônios porque, afinal, todos sabemos como são de fato a guerra e o fanatismo. Mas, mesmo nessas situações extremas, existe espaço para a complexidade. Basta pensar, por exemplo, nos filmes de Clint Eastwood sobre Iwo Jima para se convencer disso. Quer dizer, é possível (e desejável) um olhar adulto sobre uma situação complexa, exatamente para que ela possa fazer sentido na tela e para os espectadores.

Como O Caçador de Pipas trabalha também com uma estrutura folhetinesca, para entrar na história o espectador tem de aceitar a regra das coincidências, das ações inverossímeis e das determinações muito evidentes. A vida real é mais irregular, caótica, cheia de surpresas e arestas. Às vezes deixa a ficção no chinelo. Quase sempre.

(Caderno 2, 18/1/08)