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O brilho nos olhos

Luiz Zanin Oricchio

06 de novembro de 2007 | 15h28

Aquela entrada de carrinho de Finazzi, o gol feito com o bico da chuteira já nos descontos, pode ter sido a salvação do Corinthians. Pode, porque o drama não acabou, o Timão tem ainda três passos difíceis para se livrar do rebaixamento.

Mas não existe nada de mais corintiano do que aquela redenção na undécima hora, quando tudo fazia crer que a vaca já tinha ido para o brejo e o descenso era certo. Porque, convenhamos, se tivesse perdido para o Atlético-PR em casa, a situação seria trágica, inclusive do ponto de vista psicológico, fator que conta muito na hora do aperto.

Todo mundo sabe em que condições o Corinthians chegou a essa situação, portanto não vale a pena nos repetirmos. Acontece que o time está demonstrando uma vontade de sobreviver que é digna de admiração. Outro time talvez já tivesse entregado os pontos e se conformado com a sorte. Não o Corinthians. Lutou até o fim. E só quem luta até o fim consegue empatar quando ninguém mais acredita nisso.

Nesse mundo do futebol, mediado pela mediocridade do lucro imediato, ainda dá gosto ver jogadores brigando em campo como se suas próprias vidas dependessem disso.

O contraponto ao Corinthians, na rodada, esteve na outra ponta da tabela. O Santos tinha tudo para decidir em casa sua passagem para a Libertadores, mas jogou de maneira tão indolente que acabou por ceder empate ao fraco Atlético-MG. Compreensível a irritação de Vanderlei Luxemburgo depois do jogo. Faltou amor e comprometimento, acusou o “professor”. Faltou “brilho nos olhos” dos jogadores. E faltou mesmo. Parecia, a quem assistiu ao jogo, que os santistas eram completamente indiferentes ao resultado. Se desse para ganhar, muito bem. Senão, paciência, que ninguém iria perder o sono por causa disso. Estavam lá para fazer seu trabalho, bater ponto e voltar para casa. Resultado: com o empate na Vila, o Santos terá de suar sangue para conseguir a vaga que já estava em suas mãos.

Portanto, dois empates em casa, objetivamente dois maus resultados, mas com os sinais trocados: o do Corinthians soa como vitória, mesmo em sua situação in extremis, porque foi um prêmio pela luta. O do Santos parece derrota, pois foi castigo a um time preguiçoso.

Jogadores com e sem brio provavelmente existiram desde que a primeira bola foi chutada em alguma pelada ancestral. Tenho para mim que a falta de comprometimento aumentou na nova ordem futebolística. Como tudo é provisório e a camisa que se veste hoje com certeza não será a do ano próximo, parece mais fácil aos jogadores adotar aquela posição do “não estou nem aí”. Vivem de passagem pelos clubes e podem se lixar para um futuro que não lhes diz respeito. “O time vai para a Libertadores? Não é comigo, pois não estarei aqui, mesmo. Não vai? Eles que se virem, eu vou estar em outra parte, na Europa, se tiver sorte.” Parece ser esse o raciocínio, fruto não apenas de irresponsabilidade, mas de uma situação instável na qual importa mais agradar ao empresário que irá negociá-lo para o próximo clube do que fazer jus à camisa que veste.

Os bons exemplos estão aí e se destacam porque se tornaram raridades no burocrático mundo dos negócios em que se converteu o futebol. É o caso de alguns dos jogadores desse Corinthians à beira do abismo, como Finazzi, Betão e Felipe, entre outros. Foi o caso de Zé Roberto que, mesmo sabendo que iria logo embora, honrou a cada minuto a camisa de Pelé.

É chato viver num mundo em que a dedicação, que seria obrigatória, se torna exceção à regra e depende da honradez pessoal de cada jogador.

(Caderno de Esportes, coluna Boleiros, 6/11/07)

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