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O brega, Caetano e a relatividade

Luiz Zanin Oricchio

07 Novembro 2006 | 17h03

Leio que hoje morreu Miguel Acevez Mejía, o cantor e ator mexicano que estrelou tantas “comédias rancheras” nos anos 40 e 50. Mejía tinha 90 anos e era carta fora do baralho havia muito tempo. Era considerado o rei do falsete e este tom de voz era especialmente adequado para algumas músicas, como Cucurrucucú Paloma, de Tomás Mendes.

Acontece que durante muitos anos esta e outras músicas do cancioneiro latino-americano foram consideradas o supra-sumo do brega pela “intelligentsia” brasileira, para a qual Manhattan é não apenas o paraíso sobre a Terra como o único lugar digno para um ser humano civilizado habitar. Bem, foi preciso Caetano Veloso gravar um disco chamado Fina Estampa para mostrar como pode ser bela, intensa e sensível a canção latino-americana desprezada pela nata patrícia.

Caetano promoveu um revival musical talvez até nos próprios países da América Latina. Uma vez, de passagem por Caracas, vi, surpreso, que Fina Estampa era um dos CDs mais expostos nas lojas de discos. Depois dessa redescoberta, esse tipo de canção passou a ser mais divulgada e voltou a ser usada em filmes. Até mesmo em filmes cult. Estão em Happy Together (Felizes Juntos), de Wong Kar-Wai, e também em Fale com Ela, de Pedro Almodóvar com o próprio Caetano cantando Cucurrucucú Paloma, o velho sucesso de Miguel Acevez Mejía. Aliás, antes deste, outro filme de Almodóvar, A Flor do meu Segredo, se encerra com uma música de Fina Estampa, a lindíssima Tonada de Luna Llena.