O Brasil que não gosta do futebol-arte
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O Brasil que não gosta do futebol-arte

Luiz Zanin Oricchio

16 de março de 2010 | 13h46

Comemoração de gol dos jogadores do Santos

Comemoração de gol dos jogadores do Santos

Como dizia o filósofo popular Vicente Matheus, “quem sai na chuva é pra se queimar”. Se os meninos do Santos comemoram seus gols com danças e outras alegorias, é lógico que tenham de aturar as alegorias e danças dos adversários quando sofrem gols. Faz parte do jogo. E, se estamos de acordo que a alegria e o bom futebol devem andar juntos, é justo que assim seja.

Mas quando digo isso suponho uma unanimidade sobre a alegria e o futebol bem jogado, e isso está longe de acontecer. É verdade que a maior parte dos torcedores e da melhor imprensa esportiva estão em estado de graça com o futebol alegre renascido entre nós. Mas sinto também um mal disfarçado rancor contra esse time jovem dos Santos. Como se não vissem a hora que esse pesadelo (na visão deles) tenha fim. Entre os jogadores adversários também é patente essa má vontade, o que é até explicável. Como de hábito, a exceção foi Marcos. Ao responder o que achava das firulas e comemorações, esse grande goleiro e enorme figura humana, respondeu: “Deixa, é a alegria do futebol, é assim que deve ser”. E acrescentou: “Para não ter a dança, é só não tomar gol deles”. Elementar, meu caro Marcos. O jogo é na bola e à bola deve se limitar.

Causa pasmo que os comentários depreciativos continuem, mesmo após o jogão de domingo entre Santos e Palmeiras. Ora, quem foi à Vila Belmiro, ou seguiu pela TV, assistiu a uma partida de alto nível, com sete gols, virada e alternativas no placar. Houve de tudo nesse jogo, capaz de satisfazer ao paladar do torcedor mais exigente – belas jogadas, gols, raça, emoção. O que mais se pode pedir do futebol? Eu não peço mais nada. Saí do estádio satisfeito. O Santos jogou o seu futebol e o Palmeiras reabilitou-se diante de um grande adversário.

A galera alviverde estava em festa. Comemorava feito louca, depois de haver pressentido o pior quando seu time perdia por dois gols e levava um vareio de bola. O começo em desvantagem, a virada, depois a agonia de tomar o empate e finalmente vencer quase no último minuto – esse tipo de vitória proporciona uma alegria sem paralelo, um estado de felicidade que transborda a individualidade e nos faz querer abraçar desconhecidos na arquibancada.

Do outro lado, testemunhei uma reação que poucas vezes se vê em estádios de futebol: a torcida do Santos, derrotada, levantou-se e aplaudiu de pé seus jogadores na saída do campo. Era o reconhecimento não apenas pela campanha vitoriosa do time até agora, como agradecimento pelo espetáculo que havia visto no gramado. E é isso mesmo. Um ganhou, outro perdeu, a vida segue. O que fica desse jogo é a lembrança do grande futebol praticado. Generoso, alegre, aberto, como foi a característica do futebol brasileiro antes de ser descoberto pelos retranqueiros, gurus da tática e apologistas da força bruta.

Por que esses bons jogos vêm se sucedendo no desprezado Campeonato Paulista? O comentarista Flávio Prado, da rádio Jovem Pan, formulou a resposta de maneira simples e elegante: “O Santos obriga os outros times a jogarem bem”. Límpida e cristalina verdade. O jogo mais aberto dá espaço para que o adversário também jogue. Mas é ainda mais do que isso. O estilo criativo, envolvente e moleque desperta no adversário um saudável espírito de competição. Deixa o adversário mordido e obriga-o a se superar. É da nossa experiência diária: se trabalhamos com gente criativa, sentimo-nos desafiados a criar. Se vivemos entre medíocres, a tendência é nos acomodarmos.

Por isso, entendo que só os espíritos mais tacanhos possam ficar incomodados com o estilo de jogo do jovem Santos, ou ficar ofendidos com as brincadeiras dos seus jogadores. Difícil acreditar que alguém não se encante com eles. Mas como tem chato demais no mundo, tudo é possível.

(Coluna Boleiros, 16/3/10)

Tendências: