As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O Bom Retiro em transe

Luiz Zanin Oricchio

03 Novembro 2006 | 17h40

Amigos e amigas, eis aí a crítica que escrevi para o Caderno 2 sobre o belo filme de Cao Hamburguer O Ano em que meus Pais Saíram de Férias.

Muito estranho foi o ano de 1970 no Brasil. Vivia-se sob a ditadura Médici, torturava-se e matava-se nos porões dos DOI-Codis da vida. A economia falava em milagre para definir uma taxa de crescimento superior à média mundial. Mas o próprio general-presidente via-se obrigado a dizer que a economia ia bem enquanto o povo ia mal. A imprensa continuava sob censura e não se votava para presidente, governador ou prefeito. Nesse quadro torpe, o País formara aquela seleção considerada a melhor de todos os tempos e na qual brilhavam talentos como Pelé, Tostão, Rivellino, Gérson, Clodoaldo, Carlos Alberto Torres e outros. A melhor seleção do mundo para um país que vivia nas trevas. Tal era o paradoxo.

Esse é o período que Cao Hamburger escolhe para ambientar o sensível O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias. A história é vista pelo olhar de um garoto, Mauro (Michel Joelsas). Ele mora com a família em Minas. Como os pais são militantes de algum grupo que combate a ditadura, e precisam fugir, decidem deixar o menino aos cuidados do avô (Paulo Autran), que mora em São Paulo, no bairro judeu do Bom Retiro. Mas será um estranho quem acabará assumindo a guarda do garoto. Ele permanece lá, no Bom Retiro, à espera dos pais, que lhe prometeram voltar antes do jogo final da Copa do Mundo no México.

Esse é o ambiente: o Bom Retiro de 1970, com a Copa do Mundo como pano de fundo. O Brasil que vai pra frente em primeiro plano, e tudo o que o contradiz no segundo. O filme tem o frescor de uma visão infantil, vale dizer de alguém que está descobrindo o mundo e tem de assimilar o que é agradável e o que não é: as novas amizades, as rivalidades, a sensação de se sentir um estranho no ninho, a falta da proteção do pai e da mãe e a abertura para um mundo estranho, assustador e fascinante.

Há outro dado interessante do filme, talvez o mais comovente dos seus aspectos: o retrato muito fiel que Cao Hamburger faz de uma cidade de imigrantes como São Paulo. Está aí, talvez, a característica melhor desta cidade tão áspera sob outros aspectos: a vocação para o cosmopolitismo, já que Sampa é inevitavelmente multicultural e multiétnica. Era assim mesmo o Bom Retiro daquela época – predominantemente judeu, mas com forte presença de italianos e espanhóis e árabes. E também nordestinos que começavam a chegar, gente dos outros Estados, negros, mestiços. Enfim, essa bela mescla a que costumamos chamar de povo brasileiro.

Nesse ambiente, o futebol aparece como elemento de sociabilidade. Na tela da TV passa o grande futebol, a seleção maravilhosa para a qual todos torcem. Nos campinhos do Bom Retiro, impera o futebol doméstico, pequeno, no qual todos nós somos iguais perante a lei. No Brasil da ditadura, quer dizer, sem lei, o campo de jogo é o lugar onde valem as regras e onde o dono da fábrica de tecidos vale tanto quanto o operário que trabalha para ele. Essa isonomia é uma das utopias do futebol. E Mauro, que é aspirante a goleiro, parece aproveitar bem a lição: no futebol, como na vida, vale nem tanto o resultado, mas a maneira como se joga. Pode-se apostar no sucesso desse filme terno, às vezes duro, emocionado e emocionante.

(SERVIÇO)O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias (Brasil/2006, 110 min.) – Drama. Dir. Cao Hamburguer. 10 anos. Em grande circuito. Cotação: Ótimo