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O Bom Pastor

Luiz Zanin Oricchio

07 de abril de 2007 | 20h49

Com certo atraso, fui hoje à tarde ver O Bom Pastor, de Robert De Niro. O filme, de maneira geral, andou sendo malhado pela crítica. Não entendi por quê. Gostei. Sei que não é um grande filme, nada disso. Mas não me aborreci um minuto sequer das quase três horas que ele dura. Pelo contrário. Achei uma história tensa, que aborda a política internacional americana pelo viés da CIA com boa dose de realismo e maturidade.

Talvez entre um dado pessoal aí: tenho particular interesse por esse período da guerra fria que fornece o pano de fundo histórico a O Bom Pastor, aqueles anos que vão do final da 2.ª Guerra Mundial até a crise com Cuba, em especial a tentativa frustrada de invasão da Baía dos Porcos. Achei historicamente correta a abordagem de De Niro e gostei da atuação de Matt Damon, no papel do agente silencioso que, em determinado momento, vê-se obrigado a optar entre a fidelidade à “causa” e a devoção à família.

Co-produzido por Francis Ford Coppola, O Bom Pastor não deixa de ter algumas passagens que lembram O Poderoso Chefão. Há, por exemplo, uma intersecção entre o estilo de agir da CIA e o da máfia, o que não está longe da realidade, sendo que a máfia é mais amadorística. Há também aquele ambiente familiar masculino, tipicamente italiano, do qual as mulheres são alijadas. Em O Bom Pastor a “vítima” é Angelina Jolie, que faz a filha do capo da agência (o próprio De Niro) e depois se casa com Damon. Lembra demais, em determinados momentos, o papel que foi de Diane Keaton no primeiro Chefão. Enfim, existem afinidades eletivas (de mentalidade crítica e de estilo) naquela maravilhosa italianada que trabalha junto no cinema americano – De Niro, Coppola, Scorsese, Palminteri, Joe Pesci e outros. Notem que, falem sobre o que for, a questão da família está sempre posta. Não se é italiano impunemente.

Achei O Bom Pastor um filme maduro e lúcido, talvez com um pouquinho de música a mais, alguns clichês (mas quem vive completamente sem eles?), pouco ousado na forma, mas forte o suficiente para motivar quem mantém algum interesse pelo mundo adulto. Quer dizer, o mundo da História, da política, das relações internacionais entre países dominantes e dominados. Também achei um passo adiante na carreira de diretor de De Niro, embora não desgoste do seu primeiro filme, o bonito Desafio no Bronx, de 1993. O que se pode dizer é que, 14 anos depois, Robert De Niro resolveu encarar um desafio bem mais complexo do que o de sua primeira direção. Saiu-se bem, a meu ver.