‘O Barco’, porque navegar é preciso
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‘O Barco’, porque navegar é preciso

Luiz Zanin Oricchio

18 de dezembro de 2020 | 10h21

O Barco, de Petrus Cariry, tem como ponto de partida um pequeno conto do escritor cearense Carlos Emilio C. Lima. O filme participou do Cine Ceará de 2018, e apenas agora estreia, nos estertores desse ano de 2020. 

A história é bastante alegórica. Uma mulher, Esmerina (Verônica Cavalcanti), mora numa praia isolada e tem 26 filhos. Cada um tem por nome uma letra do alfabeto. A letra A (Romulo Braga) é o filho que deseja romper o casulo e lançar-se ao mar aberto, onde está a “pesca grande”, mas também onde mora o perigo. Pedro (Nanego Lira), o marido de Esmerina, não fala desde que uma filha desapareceu no mar. Há um cego (Everaldo Pontes), que assume a função de sábio ou profeta da comunidade, uma espécie de Tirésias. E há Ana (Samya De Lavor), que chega do mar, sobrevivente de um naufrágio, contando estranhas histórias e seduzindo os homens em terra.

História, como se vê, com ares de fábula. Filmada na Praia das Fontes, em que as falésias compõem com o mar um cenário perfeito, fala de muitas coisas, entre elas da sexualidade, da opressão feminina, do desejo de ultrapassar limites e “fazer-se ao mar”, mesmo quando isso implica riscos e afastamento da zona de conforto. Afinal, se a pesca grande encontra-se além da linha do horizonte, a pesca pequena da orla parece suficiente para alimentar a família, como argumenta o Cego junto ao aventureiro A. Melhor ficar com o que já se tem. Só que, com esse conformismo, ninguém sai do lugar – indivíduos ou comunidades. 

Há outro elemento, este bem real, lembrado por Petrus Cariry. “Durante as filmagens estava ocorrendo o processo de impeachment contra Dilma. Eu terminava a filmagem do dia e corria para o computador para ver o que estava acontecendo. Era muito angustiante”, diz. 

De alguma forma, essa angústia passou para o filme, nas entrelinhas, se o termo cabe, reforçando a condição de opressão por que passam as mulheres. “O barco invadido, a opressão sobre aquela mulher que sobrevive ao naufrágio e chega à praia”, cita o diretor. De fato, ainda fica de estabelecer o quanto de misoginia, paralelo a outros interesses, contribuiu para a deposição da presidente. Essa dúvida, de alguma forma, ressoa no filme. 

Em termos de construção, O Barco apresenta elementos bastante fortes. As filmagens mostram rigor, inclusive na composição de cenas noturnas. “Só utilizei luz natural, iluminação de candeeiros e luz da Lua”, conta o diretor. 

O som foi trabalhado de maneira incisiva, “para que o mar fosse também um personagem da trama”, e não apenas uma paisagem. “Timbres eletrônicos entram para criar a tensão”, diz o diretor.     

Dessa maneira, o filme flerta muito com o fantástico. É uma fábula. Porém referida ao real,  como todas as fábulas. Mas Cariry procura não mensurar os limites entre um e outro:  “Trabalho muito com o inconsciente, é uma espécie de transe quando estou filmando”, diz. 

Nesse sentido, beneficia-se do ponto de partida. “Carlos Emilio, escritor, amigo do meu pai (o cineasta Rosemberg Cariry), é um adepto do realismo fantástico. Tiramos o conto O Barco do livro Ofos, uma coletânea de relatos”.  

Desse modo, como metáfora de país, o filme não é diretamente político, mas político no fundo. 

(Crítica escrita durante o Cine Ceará 2018)

 

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