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O Bandido da Luz Vermelha

Luiz Zanin Oricchio

09 de dezembro de 2007 | 21h14

E o ‘faroeste do 3º Mundo’ chegou ao DVD. Era assim que Rogério Sganzerla chamava seu (hoje) clássico O Bandido da Luz Vermelha, que está sendo lançado pela Versátil. O DVD já está disponível, e terá lançamento oficial na segunda-feira, dia 17, às 20 horas, no Espaço Unibanco, com exibição da obra, debate e autógrafos por Helena Ignez, atriz do filme e mulher de Sganzerla até a morte do diretor, em 2004. Entre os extras, entrevistas com o cineasta e seu montador Sylvio Renoldi, Helena Ignez, o crítico Inácio Araújo, etc.

Mas a cereja do bolo está na inclusão do primeiro curta de Sganzerla, Documentário, de 1966. No enredo, dois amigos perambulam pelo centro de São Paulo em busca de um filme para ver. Metalingüístico, no final ouve-se a voz ‘over’ comentando as condições da filmagem e prometendo que ‘da próxima vez fariam melhor’. Óbvio, o então jovem crítico e cineasta estreante estava, de fato, decidindo não os filmes que deveria ver, mas o cinema que queria fazer.

E este cinema desejado explodiu nas telas dois anos depois com O Bandido da Luz Vermelha. Explosão? Em todos os sentidos. Segundo o diretor, foi um filme que deu dinheiro, tendo estreado com 40 cópias. Pagou-se em uma semana. Era também uma dinamite de criatividade, de invenção na tela, uma superposição de gêneros, referências e citações como ainda não se vira. Os enquadramentos ousados, o corte seco, o ritmo, a música sempre presente e incorporada à narrativa, o tempo todo acompanhada por duas vozes ‘over’ que comentam a ação de maneira hiperbólica, como locutores dos programas policiais sensacionalistas.

É um filme da Boca do Lixo e sobre a Boca do Lixo, já se falou. E está certo, desde que se considere a Boca não como local físico, mas cosmovisão do diretor. São Paulo é uma extensão da Boca, o Brasil é a Boca. Na verdade, todo o 3º Mundo, o lado pobre do capitalismo, é a Boca.

Muito já se escreveu sobre o Bandido e a ruptura que ele representa em relação ao Cinema Novo. Esses indícios podem ser procurados nas entrevistas com os envolvidos na história – e também no próprio interior do filme. Não espere grande coerência das entrevistas, o que é compreensível, pois artistas reavaliam obra e opiniões ao longo da vida. Em conversa com Marcos Faerman, no JT de dezembro de 1969, Rogério diz que ‘Terra em Transe, de Glauber, teve alguma influência, pois é um filme pré-tropicalista, mas ainda ligado a uma preocupação européia, estetizante’. Em 1970, deu entrevista demolidora ao Pasquim, chamando o Cinema Novo de ‘conservador, de direita’. Em 1996, ele dizia a mim, em matéria para o Estado: ‘Ninguém pensava conscientemente em fazer ruptura. Ela ocorreu depois do filme. Fui obrigado, pelo filme, a fazer esta ruptura, principalmente porque ele foi muito mal recebido pela categoria’. Essas citações foram recolhidas da coletânea Encontros/Rogério Sganzerla, organização de Roberta Canuto (Azougue Editorial).

Mas é curioso observar como Bandido dialoga com Terra em Transe, lançado no ano anterior. O mesmo ponto de umbanda usado no filme de Glauber Rocha ‘vaza’ para o Bandido, com utilização talvez paródica ou irônica. São, paródia e ironia, procedimentos comuns de Sganzerla, também presentes no Glauber de Terra em Transe. Teria sido interessante perguntar a Sganzerla o que ele via de ‘europeu e estetizante’ nessa obra de Glauber Rocha, que é também de ruptura, uma vez que respondia, de maneira dilacerada, ao golpe militar de 1964. A apreensão intuitiva daquele continente bandido descrito por Glauber recebe um contraponto imediato no universo em transe de Sganzerla. Não os vejo separados por um abismo, como hoje se quer fazer crer. Vejo-os em diálogo. Áspero, mas ainda assim diálogo.

Sganzerla é mais explicitamente cinéfilo, o que se revela óbvio em filme tão impregnado de Welles e Fuller, mas, em especial, do Godard de Acossado e Pierrot le Fou. Era quase de uma geração posterior (Glauber nasce em 1939, e ele, em 1946). Sofreram a influência do golpe militar, e seus desdobramentos, de maneira diversa. Talvez não tenha tido tempo de acreditar em uma revolução, como Glauber. Seu período de cinefilia e exercício da crítica (no Estado, entre 64-67; no Jornal da Tarde, entre 66-67) se deu naqueles anos preparatórios para o desastre de 1968 e do AI-5. Genialmente, captou em seu filme o desespero sem saída que se instauraria logo depois no País. Bandido é, entre outras coisas, um filme premonitório. Como também o foi Terra em Transe, somando a premonição ao diagnóstico social.

Dessa forma, despolitizar o Bandido, e jogar Rogério contra Glauber, parece mais um estratagema da crítica conservadora, satisfeita em seu mundinho sem fissuras, do que uma leitura mais aberta dos fatos. Está tudo lá – basta botar o DVD para rodar, abrir os olhos e ver.

(Cultura, 9/12/07)

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