O azul no fundo é cor quentíssima *
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O azul no fundo é cor quentíssima *

Luiz Zanin Oricchio

06 de dezembro de 2013 | 18h17

O título brasileiro é o mesmo da graphic novel que inspirou o filme. O Azul é a Cor mais Quente, de Abdellatif Kechiche, baseia-se, com total liberdade, na história em quadrinhos de Julie Maroh.Na França, chamou-se A História de Adèle. O centro da história é a paixão entre duas garotas.

Na versão de Kechiche temos um drama em dois atos. No primeiro, acompanhamos a educação sentimental de uma adolescente, Adèle. No segundo, as intermitências da paixão entre Adèle (Adèle Exarchopoulos) e Emma (Léa Seydoux). Duas informações externas, que não se podem desdenhar. O filme ganhou a Palma de Ouro em Cannes e, imediatamente, envolveu-se em mil polêmicas.

Tudo a propósito, parece, das cenas de sexo explícitas entre Adèle e Emma, uma delas de cerca de sete minutos. Alguns jornais acusaram Kechiche de voyeurismo. A autora da história em quadrinhos afirmou que Kechiche filmava o amor lésbico do ponto de vista de um macho. E assim foi. As próprias atrizes andaram se queixando da superexposição, mas depois se desdisseram. O fato de Léa Seydoux ser herdeira da Gaumont e princesinha do cinema francês só ajudou a botar lenha na fogueira.

Kechiche esteve em São Paulo, em companhia de Adèle Exarchopoulos, e pareceu na defensiva, talvez escaldado pelo succès d’escandale que o filme havia obtido em seu país. Justificou a duração das cenas como a busca de uma escritura cinematográfica própria, o que parece acertado. Basta rever aquele que talvez seja seu trabalho melhor, O Segredo do Grão, em que uma moça encena uma interminável dança do ventre para distrair os clientes enquanto o jantar em seu restaurante não fica pronto. É o centro de O Segredo do Grão.

Assim como a relação sexual em tempo real entre Emma e Adèle ocupa o núcleo de O Azul É a Cor mais Quente. Ele é que divide a história em duas partes. A antes inexperiente e hesitante Adèle passa a comporta-se como uma amante das mais expertas, no mesmo nível da muito mais rodada Emma. E a relação se estabelece em um grau de equidade amorosa, equilíbrio que será minado, aparentemente, pela desigualdade das origens sociais das duas parceiras.

Emma é uma artista plástica que busca espaço na difícil cena cultural parisiense e, por fim, o encontra. Adèle encaminha-se para o magistério e torna-se professora primária.  Essa é uma contradição. Mas, veja. O “abismo” cultural entre elas não parece tão grande assim. Emma é uma artista, porém o seu reconhecimento parece encaminhar-se mais para o lado do sucesso burguês nas vernissages do que para uma autêntica realização estética. Essa “réussite” social de Emma é um dos aspectos mais fakes do filme de Kechiche. Por outro lado, o litígio entre as duas se dará por uma questão de ciúmes e não por outro motivo.

Em entrevista, Kechiche desfaz-se das críticas recebidas com o argumento de que buscava uma “banalização” da relação homossexual. O verbo “banaliser” foi assim traduzido, e não está errado, mas o conceito, em francês como em português, tem algo de pejorativo, o de tornar alguma coisa trivial, sem importância, redundante. Concedamos, com boa vontade, que ele quis dizer outra coisa. Queria mostrar o amor entre duas mulheres como algo natural. Tanto como se fosse o amor entre dois homens, ou entre um homem e uma mulher.

Certo, mas, como se sabe, sexo e morte são dimensões da experiência humana que colocam sérios problemas à sua representação na tela. São como formas tabus, irredutíveis, no limite, à representação. Daí, por exemplo, a tentativa de glamurizar a morte, como forma de evitar a sua crua realidade. Em Tarantino, a morte é pop; em Kieslowski é quase insuportável. O sexo é embelezado de maneira publicitária em Nove e Meia Semanas de Amor e jogado de forma quase crua em Império dos Sentidos. Em Kechiche há essa questão adicional da temporalidade. Em busca de sua escritura própria, ele precisa se estender, alongar a sequência até seu limite. Durante o sexo, em especial na cena mais longa, tudo é explícito e em tempo real. As elipses encontram lugar em outras partes do filme, como na já aludida sabedoria sexual de Adèle, adquirida do dia para a noite, de maneira tão súbita quanto surpreendente.

Há também em Kechiche uma crescente obsessão pelos closes. Vamos dizer que seja uma preferência, e esta também parte da busca pela escritura própria. De certo modo, é como se a câmera quisesse explorar de cada vez mais perto a textura dos corpos, milímetro por milímetro. Não apenas a pele, mas também as aberturas, a boca em especial. Quando ama, mas também quando come, mastiga, deglute e bebe. Existe algo de profundamente corporal, visceral mesmo neste filme, o que, inútil dizer, também pode provocar certo desconforto em sua recepção.

Vale dizer que O Azul É a Cor Mais Forte nos reserva momentos de inesperada beleza e emoção. Centrado muito mais numa das protagonistas que na outra, vemos em Adèle (que não por acaso conserva seu prenome como personagem e dá título ao original em francês) a referência mais forte do olhar do cineasta. É para ela que convergem não apenas as dificuldades mais intensas, mas o amor mais explícito da câmera. Mesmo em termos de enredo esse desequilíbrio é perceptível – se a trajetória de Emma parece terminada com seu aburguesamento artístico, a de Adèle fica ainda em aberto, para ser retomada talvez numa continuação já insinuada pelo diretor.

As cenas de brigas entre as duas são muito intensas. O mesmo para as de sexo. Enfim, mesmo se o filme tende para a prolixidade, não se pode dizer que não traga recompensas para o espectador. E, apesar das ressalvas que se possam fazer sobre a sua maneira de retratar o sexo, sente-se em Kechiche uma honestidade de base em relação ao seu projeto estético. Às vezes ele pode ser desajeitado, mas não é malévolo e tem na intensidade o seu trunfo mais forte.

Texto integral da minha crítica de O Azul é a Cor mais Quente

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