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O avatar do cinema

Luiz Zanin Oricchio

01 de janeiro de 2010 | 22h29

A megaestreia de Avatar vem sendo associada a uma suposta “terceira grande revolução do cinema”, do qual ele faria parte e seria a sua expressão até agora mais completa. A revolução do 3D. Assim a chamou Jeffrey Katzenberg, em entrevista à New Yorker. De acordo com o guru da Dreamworks, o cinema teria sofrido duas grandes rupturas em sua história – o surgimento do sonoro e da cor – antes desta, a que agora assistimos, a do cinema em terceira dimensão, no qual o espectador não apenas assiste, mas sente-se imergir no filme e conviver com os personagens.

Afirmação taxativa que precisa ser balanceada, claro, antes de batizarmos 2009 de “o ano do 3D” ou “o ano de Avatar”.

Antes de tudo, será preciso admitir que o aparecimento do cinema sonoro, por volta dos anos 30 foi, de fato, tudo aquilo que podemos chamar de uma verdadeira revolução. Se no Brasil, periférico do ponto de vista cinematográfico, inspirou o verso imortal de Noel Rosa (“O cinema falado é o grande culpado da transformação…”), no coração do sistema desestabilizou um gênio como Charlie Chaplin que só muitos anos depois faria um personagem falar diante das câmeras – e ainda assim jamais o vagabundo Carlitos, seu tipo ideal, que entrou mudo e saiu calado da cena cinematográfica. Chaplin falou, a contragosto, em O Grande Ditador (1940) e em seus últimos filmes, Monsieur Verdoux (1947), Luzes da Ribalta (1952), Um Rei em Nova York (1957) e A Condessa de Hong Kong (1966).

O sonoro abriu então uma série de novos caminhos – e fechou outros. Chaplin podia não gostar da novidade, mas sem o sonoro não haveria o cinema radiofônico de Orson Welles e nem seu Cidadão Kane (1941), o divisor de águas do cinema contemporâneo. O velho Carlitos resistiu o que pôde e inspirou, aqui no Brasil, um certo Chaplin Club, agremiação de cinéfilos intelectualizados (da qual faziam parte Mário Peixoto, Octavio de Farias e Vinícius de Morais), defensora da tese de que o sonoro faria regredir o cinema ao seu estágio anterior, o de teatro filmado. A inovação do cinema estaria no desafio proposto ao diretor de expressar quase tudo por meio de imagens, valendo-se aqui e ali de cartazes e intertítulos quando os diálogos fossem inevitáveis. Se a palavra lhe fosse dada de graça, a tendência seria banalizar a imagem. Faz certo sentido.

Com queixas ou não, a mudança viera para ficar e os profissionais foram obrigados se adaptar. Era isso, ou perecer. A maioria conseguiu se reciclar, outros ficaram pelo caminho. O mais belo filme sobre esse passo decisivo na história do cinema, e seu custo humano, é Crepúsculo dos Deuses (1950), de Billy Wilder, com a velha atriz Norma Desmond vivendo do passado porque ninguém mais a deseja em seus filmes. O interessante é que Norma é interpretada por Gloria Swanson, ela mesma uma veterana atriz do cinema mudo que enfrentou grandes problemas com a transição.

Enfim, o advento do sonoro foi mesmo um abalo sísmico, uma ruptura e bem merece o nome de revolução. Já a chegada da cor parece uma passagem importante, mas bem mais suave. Grandes filmes já haviam sido rodados em cor como …E o Vento Levou (1939) e O Mágico de Oz (1939), mas a cor se generaliza e ainda assim de forma progressiva apenas a partir dos anos 1960. Durante muito tempo cor e preto e branco convivem e vários diretores ainda preferiam exprimir-se em P&B, mesmo já dispondo de tecnologia para o colorido. Em 1963, Federico Fellini roda sua obra-prima, Oito e Meio, e recebe do produtor a proposta de filmar em preto e branco as cenas da “realidade” e em cores a dos sonhos e fantasias. Isso para distinguir os dois planos e ser mais didático com o espectador. Fellini não quis, justamente porque seu propósito era embaralhar esses dois níveis da experiência humana e representá-los como equivalentes.

Mesmo hoje, quando alguns filmes querem ser explicitamente “realísticos” (por exemplo) valem-se do preto e branco, como são os casos de O Ódio (1995), de Mathieu Kassowitz, Terra Estrangeira (1996), de Walter Salles e Daniela Thomas, ou Boa Noite, e Boa Sorte (2005), de George Clooney. Não se pode dizer que haja uma convivência entre as duas técnicas porque, é óbvio, a imensa maioria da produção é feita em cores. Mas também não se conhece nenhuma grande vocação que tenha sido abortada por não se adaptar à cor, ou qualquer diretor que tenha ficado à margem por ter começado pelo preto e branco e depois mudado para a cor. Orson Welles, Luchino Visconti, Federico Fellini, Michelangelo Antonioni, Glauber Rocha e tutti quanti fizeram seus primeiros filmes em preto e branco e passaram depois à cor sem qualquer problema perceptível.

Deixa maiores marcas no cinema a transformação ocorrida de meados até o final dos anos 1970, quando o poder de Hollywood passa das mãos de autores como Martin Scorsese, Dennis Hopper, Robert Altman, Francis Ford Coppola para os cultores do cinema de efeitos especiais, George Lucas e Steven Spielberg em especial. Começam a sair de cena Sem Destino (1969), Taxi Driver (1976), MASH (1970) e O Poderoso Chefão (1974), para dar lugar a Tubarão (1975), Guerra nas Estrelas (1977) e Os Caçadores da Arca Perdida (1981). As tramas tornam-se mais simplórias, os personagens são divididos entre bons e maus de maneira maniqueísta e os efeitos especiais tomam o lugar da complexidade moral de filmes anteriores.

Os estúdios (re)descobriram algo bastante evidente, que a grande maioria do público queria apenas se divertir e os filmes começaram a ser feitos nessa direção. O nosso cinema contemporâneo ainda é moldado por essa trajetória iniciada nos anos 70 e tão bem desenvolvida no livro Como a Geração Sexo-Drogas e Rock’n’Roll Salvou Hollywood: Easy Riders, Raging Bulls, do jornalista Peter Biskind (Editora Intrínseca). Os blockbusters contemporâneos têm de ser entendidos nessa chave e Avatar, de James Cameron, bastante convencional como narrativa, não parece uma exceção, a não ser do ponto de vista técnico.

Radical, de certo, é a transformação que vem sendo causada pelo cinema digital. Se por um lado ela barateia a produção e a distribuição (elimina a custosa tiragem de cópias em película), por outro tem causado o protesto de cinéfilos, que a acusam de deformações na projeção, falta de definição da imagem, etc. As exibições de Les Herbes Folles, de Alain Resnais, durante o Festival do Rio, geraram até um abaixo-assinado de críticos, pedindo maior respeito às obras originais. Uma das empresas responsáveis pela projeção digital, a Rain, respondeu e a polêmica se formou. No entanto, ao que parece, a qualidade do digital, apesar de alguns percalços, avança e tudo indica que a película em 35 mm, com sua aura romântica e definição de paleta de cores e luzes digna da grande pintura holandesa de Rembrandt e Vermeer, tenha seus dias contados.

Como contrapartida da sua praticidade, o digital apresenta um grave calcanhar de Aquiles – a facilidade com que é indevidamente copiado. Como defender dos piratas um investimento cada vez mais alto na produção dos filmes? A única resposta possível parece ser: oferecendo ao público do cinema um espetáculo que ele jamais poderá ter em sua casa, por sofisticado que seja o seu equipamento de home theater. Os números de Avatar mostram que o público sabe o que procura. Foi lançado no Brasil em 652 salas, 95 delas equipadas para projeção em 3D. Mas as salas em 3D, numericamente minoritárias, foram responsáveis por nada menos que 41% da renda do filme, segundo dados do Portal Filme B, especializado em mercado cinematográfico. Quer dizer, em Avatar o público busca aquela experiência radicalmente diferente daquela a que está acostumado. Nas bilheterias das salas 3D e IMax paga caro por aquilo que uma sala convencional ou a banquinha do camelô não oferece. Pode ser uma saída para o cinema. Para o cinemão, pelo menos.

Resta ver se o 3D irá se generalizar como modalidade ou ficará restrito a alguns megalançamentos do porte de Avatar. Em todo caso, o Brasil já se prepara para surfar nessa onda com o lançamento de filmes em 3D como Tainá 3, Brasil Animado e Quem Tem Medo de Fantasma? Confinado às produções de grande orçamento, o chamado “cinema-pipoca”, o 3D começa a rondar os principais festivais do circuito: Up – Altas Aventuras, animação em 3D da Pixar, abriu o Festival de Cannes este ano. Outro templo do cinema de arte, a Mostra de Veneza, criou também em sua edição de 2009 a categoria “melhor filme em 3D”, vencida por The Hole, de Joe Dante. Enfim, o cinema em 3D se expande e ganha impulso com o lançamento de Avatar, que talvez colha os frutos do seu sucesso já no próximo Oscar.

A técnica, até mesmo por seu alto custo, ainda parece restrita ao cinema comercial. Fica difícil imaginar um filme de Julio Bressane, Abbas Kiarostami, Jean-Luc Godard ou Manoel de Oliveira em 3D. Mas, por que não, afinal? Só que, por enquanto, a terceira dimensão do cinema de autor ainda é outra. Ela se forma na inteligência e na sensibilidade do espectador e ainda não depende da tecnologia de ponta criada nos laboratórios do audiovisual.

(Caderno 2, 1/1/10)

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