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O apogeu de Joãosinho Trinta

Luiz Zanin Oricchio

18 de novembro de 2014 | 00h40

 

No conjunto de filmes biográficos brasileiros, Trinta me pareceu bastante razoável. Bom mesmo, em que pesem alguns possíveis problemas. Mas seria mesquinho ater-se a eles, e esquecer o que a obra tem de interessante e mesmo comovente.

A começar pela interpretação de Matheus Nachtergaele. Em nada se parece fisicamente com Joãosinho Trinta. Mas, quem se importa? A partir de um determinado momento, não estamos nem aí. Vemos Joãosinho nele, o tempo todo. É o trabalho do ator, e ponto.

Me pareceu também acertado o recorte proposto por Machline. Ao invés daquelas cinebiografias que se querem completas, tipo “do berço à cova”, que, pela extensão, sempre parecem dispersivas, procurou se concentrar num período específico da vida de Trinta. Sua chegada ao Rio (era de São Luis), o trabalho no Teatro Municipal, o convite de Fernando Pamplona para trabalhar com ele no Salgueiro. E, por fim, quando Pamplona sai, brigado com o bicheiro da Escola, o substituindo no comando do carnaval. É então que, contra tudo e todos, tira da cartola um desfile genial e ganha o primeiro lugar no desfile, fazendo História.

Fértil, também, a aproximação entre carnaval e ópera, sobre a qual se insiste muito, e faz todo o sentido. Trinta leva esse olhar (e ouvido) cultos à escola de samba, e transforma, para sempre, os desfiles e seu significado. Foi um grande criador, fundindo gêneros, para dizer assim.

Com tudo isso, o filme às vezes enfraquece quando se imola ao cinema brasileiro “de qualité”, com suas tentações acadêmicas. Não faria mau negócio se enlouquecesse um pouco, se dialogasse, por exemplo, com Lira do Delírio, de Walter Lima Jr, e com aquilo que o Carnaval tem de dionisíaco e desordenado. A ênfase, pelo contrário, foi em seu aspecto construtivista, com Joãosinho funcionando como um empreendedor bem-sucedido, que chega ao topo depois de muito ralar e bater-se contra antagonistas poderosos. No caso, um antagonismo resumido ao chefe do barracão (Millen Cortaz).

Outra coisa é que, em algum lugar e tempo, o personagem de Joãosinho Trinta teria de formular a frase famosa – “Pobre gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual”. No entanto, ela surge no pior momento e de alguma forma soa artificial.

No todo, o filme emociona e nele vê-se a figura de um dos nossos maiores criadores contemporâneos. Capta a essência de Joãosinho Trinta, que consistiu em negar a oposição entre popular e erudito. Esta já foi a melhor característica brasileira. Em tempos idos.

O filme tem sido alvo de certa implicância crítica. Porém duvido que alguém não se sinta tocado quando Joãosinho consegue, por fim, a sua “rainha”para o carnaval e ela aparece, como uma diva. É um momento sublime, sem exagero.

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