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O apito em questão *

Luiz Zanin Oricchio

21 de agosto de 2012 | 09h28

Saio da Olimpíada e entro no Campeonato Brasileiro pela porta da polêmica. O amigo já deve saber do que se trata, a não ser que tenha passado o fim se semana em algum asteroide fora do sistema solar. Falo do segundo gol do Santos contra o Corinthians, uma jogada em três impedimentos. Nem um, nem dois, mas três, contadinhos, que passaram sob as vistas grossas da arbitragem. Tite, na justa ira de quem nunca se beneficiou de erro de juiz, soltou os cachorros e tachou de “lamentável” a atuação do árbitro e auxiliares.

Chiar é de lei. O Corinthians foi prejudicado. Assim como já foi beneficiado por outros erros. Todos os times já ganharam e perderam por erros dos árbitros brasileiros, cujo nível, é bom lembrar, está longe de ser satisfatório. Pelo contrário. Mas poderíamos ter arbitragens bem melhores sem que os erros fossem de todo banidos dos jogos. E por quê? Porque boa parte da arbitragem se baseia em interpretações. A clássica: foi mão na bola ou bola na mão? O jogador teve a intenção de colocar a mão na bola, ou apenas “se protegeu”, por reflexo? Perguntas irrespondíveis, porque a ninguém é dado entrar na cabeça do outro para sondar-lhe a intenção.

Como isso se resolve? Não por acaso, o futebol moderno foi inventado na Grã-Bretanha. Suas regras seguem a tradição anglo-saxônica de regulamentos enxutos, aplicados segundo o bom senso e a tradição. Nós outros, latinos e ibéricos, em especial, gostamos de prever tudo em todas as cláusulas, tentando cobrir todas as variantes e, por isso mesmo, fracassamos na aplicação de leis “perfeitas”. Votamos regulamentações enormes, e inviáveis. Na deles, impera o chamado senso comum. Nem por isso são textos isentos de ambiguidade.

No caso do futebol: como boa parte da aplicação das regras depende do ponto de vista do árbitro, sempre haverá polêmica, não importa qual seja a qualidade e a imparcialidade de quem aplica a lei. Por exemplo, o futebol é um jogo de contato, todos estamos de acordo quanto a isso. Mas qual o limite entre o contato físico legal e aquele que constitui uma infração? Nos casos mais notórios, todo mundo sabe identificar. Mas, e nos casos limites, como distinguir entre uma falta e a encenação de um jogador? Difícil, não é? Acontece que essa interpretação, que recai sobre os ombros do juiz, pode decidir uma partida, até mesmo um campeonato e mesmo uma Copa do Mundo, por que não?

Agora, há situações que não dependem de interpretação e poderiam ser resolvidas pelo simples uso da tecnologia. Caso de a bola ter entrado ou não no gol, ou nos impedimentos. Seria simples solucionar esses casos e evitar choradeiras como as de Tite. Quanto ao resto, sempre haverá polêmica, enquanto o futebol for o futebol. O Corinthians foi prejudicado na Vila e já foi beneficiado por erros a seu favor em muitas circunstâncias. Como todos os outros clubes. Resta verificar se todos são prejudicados e beneficiados na mesma proporção, o que fica por demonstrar.
* Coluna Boleiros, publicada no Caderno de Esportes do Estadão