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O almanaque fantástico de Julio Cortázar

Luiz Zanin Oricchio

27 de junho de 2010 | 23h33

Julio Cortázar morreu há 26 anos. Como é possível, depois desse tempo todo, reunir uma miscelânea de inéditos grande o suficiente para formar um livro de 450 páginas? É o que se pergunta, no prólogo destes Papéis Inesperados (490 págs., R$ 62,90), Carles Álvarez Garriga, que organizou o volume ao lado da viúva, Aurora Bernárdez.

A resposta, ele mesmo dá ao contar uma pequena história da vida literária. Garriga conversava animadamente com Aurora, no apartamento dela, no 15 ème arrondissement, em Paris, na antevéspera do Natal de 2006. Falavam de Cortázar (1914-1984), claro, quando a viúva mostrou ao visitante uma velha cômoda, abriu uma gaveta abarrotada… e começaram a surgir papéis. À medida que as gavetas iam sendo esvaziadas, ela perguntava ao interlocutor, pasmo com a descoberta, se ele já havia visto tal e tal artigo, se conhecia este conto original, se havia lido uma determinada autoentrevista de Julio, etc. O conteúdo da cômoda foi colocado, primeiro sobre a velha mesa em que Cortázar escrevera sua obra-prima, O Jogo da Amarelinha; depois, esparramado pelo chão do quarto. Era um tesouro, em desordem completa, e que precisava ser avaliado, selecionado e, em seguida, divulgado.

O volume, aparecido em 2009 e agora publicado em português pela Civilização Brasileira sai em forma de almanaque, isto é, no estilo heterogêneo que era um dos prediletos do próprio Cortázar. Uma espécie de “modelo para armar”, subtítulo, como se recorda, de uma outra de suas obras. Esses Papéis são mesmo um estupendo fundo de gaveta, páginas escritas ao longo de toda uma vida literária, preservadas, mas que tiveram de ganhar sentido pelas mãos do organizador. Para tanto, ele dividiu os textos em três blocos: poemas, prosas e autoentrevistas, um gênero, ele lembra, que talvez tenha sido inventado por Truman Capote, mas que Cortázar e outros usaram como meio de expressão. Nem sempre os jornalistas, mesmo literários, fazem as perguntas adequadas. Em falta disso, o escritor as formula para si mesmo e as responde como lhe parece melhor.

Cada uma dessas três divisões se bifurca em outras tantas, como se bifurcavam os caminhos naquele conto de Jorge Luis Borges que, aliás, foi o primeiro a editar uma história de Cortázar – A Casa Tomada. Temos assim desde aquele que provavelmente foi o primeiro conto escrito por Cortázar – A Adaga e a Flor-de-Lis – até alguns relatos excluídos da edição final de Histórias de Cronópios e de Famas. Há um capítulo também não aproveitado em O Livro de Manuel e vários relatos não utilizados em Um Tal Lucas.

Nas prosas de circunstância, encontramos o Cortázar mais diretamente político, aquele que apoia a Revolução Cubana e outros governos de esquerda do continente, do Chile à Nicarágua. Há as já citadas autoentrevistas e a seção Fundo de Gaveta, que contém, segundo Arriga, “os papéis mais inclassificáveis” do acervo encontrado na casa de Aurora e Julio, um apartamento, diziam seus amigos em tom de mofa, tão comprido e longilíneo quanto era o próprio Cortázar, um gigante de quase dois metros de altura.

Extenso também era o campo de interesse de Cortázar, e essa diversidade é um dos (muitos) motivos para ler estes Papéis Inesperados. Encontramos desde um autor digamos, mais racional, que procura estar à altura do seu tempo e recortá-lo segundo as suas premissas políticas, até aquele que se entrega à fantasia e se assume como verdadeiro cronópio – este ser por ele inventado, que privilegia o sonho sobre os bem fundados motivos da vida cotidiana, e que teria Louis Armstrong como um dos seus exemplos maiores. Os textos que aparecem neste volume e não constam das edições originais de Histórias de Cronópios e de Famas foram retirados por pressão do editor, aparentemente para que o livro não ficasse muito volumoso.

São circunstância da vida de um escritor. Como são o inesperado convite, feito a um artista de esquerda, para conceder entrevista à Life, em 1969. Cortázar faz uma série de exigências para atender à solicitação e as comenta no próprio texto publicado na versão em espanhol da revista americana. Faz todas as restrições à imprensa “imperialista” e não as arrefece nem mesmo quando se vê obrigado a admitir que tinha total liberdade para dizer o que bem desejasse. Descrevia essa liberdade como uma forma ainda mais sutil do “imperialismo cultural norte-americano” para penetrar no continente latino-americano e conquistá-lo. “A boa vontade da Life pode ser, neste sentido, tão diabólica como a mais agressiva das atitudes do Departamento de Estado”, escreve. Este era o Cortázar político que havia conhecido sua “estrada de Damasco” na visita a Cuba e na amizade de toda a vida com Fidel Castro. É curioso como tal discurso ideológico se desenha de maneira clara, porém jamais contamina outros textos, prova de que Cortázar tinha suas posições mas mantinha o espírito livre em todas as circunstâncias. Inclusive quando seus amigos cubanos o criticavam por seu apego às histórias fantásticas.

Enfim, este é apenas um dos inúmeros recortes que se podem tirar desta rica miscelânea literária oferecida aos leitores de Cortázar. Afinal, esse almanaque nos ensina mais sobre a formação e evolução literárias de Cortázar do que o faria uma biografia.

Como escreveu Luis Harss em seu ensaio-entrevista A Bofetada Metafísica, Cortázar nem sempre foi o que é; “como chegou a sê-lo é um problema misterioso e desconcertante”. Esses Papéis Inesperados com certeza não encerram esse problema. Fornecem algumas pistas. E muito prazer literário a quem se dispuser a segui-las.

(Sabático, 26/6/10)

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