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O AI-5 e a arte da resistência

Luiz Zanin Oricchio

08 de dezembro de 2008 | 12h46

Amigos, eis aí meu texto sobre a cultura no período do AI-5, parte do caderno especial do Estado que circulou ontem, dia 7/12. Abaixo, para quem quiser ler, coloco uma versão mais longa, que teve de ser editada por falta de espaço.

A onda artística que veio quebrar-se contra a muralha do AI-5 já vinha se formando havia muitos anos. Mesmo antes do golpe militar de 1964, começaram a se formar núcleos de renovação estética, com a bossa nova, o Cinema Novo, os Teatros de Arena e Oficina, o CPC (Centros Populares de Cultura) da UNE, a poesia concreta, etc.

Após o golpe de 64, o poder militar mostrou-se incapaz de controlar essas manifestações artísticas contestatórias. Filmes como Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, Os Fuzis, de Ruy Guerra, e Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, foram concebidos ainda em 1963, durante o governo Goulart, mas desenvolveram suas carreiras no ano seguinte. Morte e Vida Severina, peça baseada no poema de João Cabral e musicada por Chico Buarque, era assistida no Tuca, em São Paulo, como cerimônia de indignação cívica. O contraponto carioca era o show Opinião, levando a platéia a um transe contestador. No teatro, o transe dava-se no Arena, com a peça Arena conta Zumbi, de Boal e Guarnieri. As canções de Chico Buarque e Geraldo Vandré embalavam toda uma geração que pedia reformas sociais e era contra o governo militar.

Como o enfrentamento entre sociedade e governo militar acirrou-se nos anos 1967 e 1968, tal fato não poderia deixar de refletir-se nas artes. Em 67, aparecia um filme genial e desesperado, Terra em Transe, de Glauber. Os festivais ferviam, e músicas como Disparada, de Théo de Barros e Vandré, diziam o que parte significativa da sociedade, na oposição, queria ouvir. No teatro, a releitura radical de O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, fazia de José Celso um dos principais nomes da época. Na literatura, Quarup, de Antonio Callado, discutia a opção armada na contestação ao regime. E, nas artes plásticas, Hélio Oiticica inaugurava Tropicália, “ambiente instalação” que iria ter grande influência no desenvolvimento da música popular. Inspirou o Tropicalismo, movimento contestador em termos comportamentais, que rompia com o discurso estético (e político) da esquerda tradicional, mas incomodava profundamente a direita.

Depois do AI-5 a censura torna-se absoluta e a perseguição ganha ares de “legalidade”. Muitos dos artistas mais incisivos seguem para o exílio, como Glauber, Caetano, Gil, Chico Buarque, Geraldo Vandré, José Celso, entre outros.

O desafio passou a ser “driblar” a censura, passando mensagens cifradas que poderiam ser compreendidas pelo destinatário avisado. No sambão Aquele Abraço, Gil falava do exílio. Em Alfômega, murmurava, entredentes, o nome de Carlos Marighella. Mas o hino da resistência veio mesmo com Chico Buarque e Apesar de Você, cujos versos “Apesar de você/Amanhã há de ser um novo dia”, falava da inevitável transitoriedade histórica da ditadura.

O cinema valeu-se de um barroquismo alegórico para passar pela censura. São os casos de Azyllo Muito Louco, adaptação de Nelson Pereira dos Santos para O Alienista, de Machado de Assis, Pindorama, de Arnaldo Jabor, e tantos outros. Alguns cineastas encontraram meios diferentes para evitar a censura. Joaquim Pedro, em Os Inconfidentes, usa o texto dos Autos da Devassa da Inconfidência para, de esguelha, refletir sobre o momento político. São Bernardo, de Leon Hirszman, adota a grande obra literária, de Graciliano Ramos, para conduzir sua reflexão anticapitalista. O cinema dito “marginal” gera um grito de desespero, criativo porém politicamente inarticulado, e busca no deliberado mau gosto expressão para aquele momento de sufoco social – são casos como os de Bang Bang, de Andrea Tonacci, Matou a Família e Foi ao Cinema, de Julio Bressane. No teatro, a censura continuava atenta e uma peça como Calabar, de Ruy Guerra e Chico Buarque, esbarrou em seu veto.

A chegada de Geisel ao poder dá início à política de distensão. Com a criação da Embrafilme, remanescentes do extinto Cinema Novo voltaram-se para a produção de filmes de sucesso. São da década de 70 os maiores êxitos de público do cinema brasileiro, como Dona Flor e seus Dois Maridos, Xica da Silva e A Dama do Lotação. Muitos interpretam esse processo de domesticação do cinema, sob a guarida do Estado, como mais eficaz que qualquer lei de censura.

O fato de a produção artística ter se mantido, ainda que precariamente, durante a década de 70 e produzido algumas grandes obras, pode ser considerado quase como um milagre. A música de Milton Nascimento, Caetano Veloso e Chico Buarque, livros como Reflexos do Baile, de Antonio Callado, peças como Gracias Señor, no Oficina, eram atos de desobediência civil. Mas já não atingiam a sociedade como antes, e nem poderiam fazê-lo, pois se vivia um tempo de medo antes que a abertura se completasse.

Acreditava-se que após o levantamento da lei de exceção, jorrariam obras deixadas no fundo da gaveta. Engano. Com algumas notáveis exceções, a década de 1980 foi das mais medíocres no plano artístico, embora embalada pela esperança das Diretas-Já. Algo se quebrara ao longo da fase feroz da ditadura e a atividade artística ainda levaria tempo para se recompor. Nunca mais seria a mesma dos anos 60, mesmo porque o tempo já era outro. No silêncio da história, a presença da indústria cultural havia se intensificado, e a “arte para o mercado” surgia como a fórmula mais eficaz para a esterilização da arte contestadora e radical.

(Caderno Especial sobre o AI-5, 7/12/08)

Versão mais longa:

A onda artística que veio quebrar-se contra a muralha do AI-5 já vinha se formando havia muitos anos. Na verdade, era anterior ao golpe militar de abril de 1964. Antes dele, e já a partir do final dos anos 50, começavam a se formar núcleos de renovação estética no País, com a bossa nova, o Cinema Novo, os Teatros de Arena e Oficina, o CPC (Centros Populares de Cultura) da UNE, a poesia concreta, etc. É bom que se registre, também, que essas manifestações não se davam apenas no Brasil, mas aconteciam em escala internacional. O desejo de renovar e contestar a ordem estabelecida (estética e política) parecia algo universal, como preparando terreno para a ruptura no ano-chave de 1968.

Mesmo após o golpe de 64, o poder militar sobre a sociedade mostrou-se incapaz de controlar de maneira completa essas manifestações artísticas contestatórias. Mesmo porque o País vivia um arremedo de democracia, mas não era ainda uma ditadura escancarada. Havia uma liberdade tolerada. Filmes como Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, Os Fuzis, de Ruy Guerra, e Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, a “Santíssima Trindade” do Cinema Novo, foram concebidos ainda em 1963, durante o governo Goulart, mas desenvolveram suas carreiras no ano seguinte. Os grupos teatrais seguiram ativos e contestadores mesmo depois do golpe.

Morte e Vida Severina, peça baseada no poema de João Cabral e musicada por Chico Buarque, era assistida no Tuca, em São Paulo, como uma cerimônia de indignação cívica. O contraponto carioca era o show Opinião, com Nara Leão, depois substituída por Maria Bethania, levando a platéia a um transe contestador. No teatro, o transe dava-se no Arena, com a peça Arena conta Zumbi, de Boal e Guarnieri. A música popular tornou-se o veículo mais forte da arte engajada brasileira, com as canções de Chico Buarque e Geraldo Vandré embalando toda uma geração que pedia reformas sociais e era contra o governo militar. A arte desses anos foi, em suas diferentes vertentes, formalmente inovadora e de conteúdo voltado para a denúncia das contradições sociais brasileiras.

Como o enfrentamento entre sociedade e governo militar acirrou-se nos anos 1967 e 1968, tal fato não poderia deixar de refletir-se nas artes. Em 67, aparecia um filme genial e desesperado, Terra em Transe, de Glauber. Era já o filme da digestão do golpe, uma descida à estrutura mesma da sociedade brasileira, crítica em relação ao salvacionismo da esquerda, ao cinismo da direita e o apego popular aos líderes demagógicos. Os festivais ferviam e músicas como Disparada, de Téo de Barros e Vandré, diziam o que parte da sociedade, de oposição, queria ouvir. No teatro, uma releitura radical de O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, fazia de José Celso um dos principais artistas da época. Na literatura, Quarup, de Antonio Callado, discutia a opção armada na contestação ao regime. E, nas artes plásticas, Hélio Oiticica inaugurava Tropicália, “ambiente instalação” que, como se sabe, iria ter grande influência no desenvolvimento da música popular. Esse pré-AI-5 viria nascer, como um dos seus brotos mais férteis, a Tropicália, movimento contestador em termos comportamentais, que rompia com o discurso estético (e político) da esquerda tradicional, mas incomodava profundamente a direita.

Vista em seu conjunto, a produção artística desses anos, do final dos anos 50 até 1968, aparece como a mais rica da história recente do País. Não se pode saber até onde a arte brasileira poderia ter-se desenvolvido se não houvesse o AI-5. O fato é que, com o Ato, aboliu-se por completo a liberdade para criar. Não que antes não houvesse repressão, censura e mesmo agressão. Mas esta ainda não era oficial e abrangente. Por exemplo, em julho de 1968, os atores da peça Roda Viva, de Chico Buarque, montada por Zé Celso, sofreram um atentado por parte do CCC (Comando de Caça aos Comunistas), organização paramilitar de direita. Num dos festivais de música, o III Fic, da Rede Globo, o júri foi “convencido” a escolher como vencedora a canção Sabiá, de Tom Jobim e Chico Buarque, para não premiar a mais explicitamente engajada Caminhando (Para não Dizer que não Falei de Flores), de Geraldo Vandré, música que virou o hino das passeatas, “a nossa Marselhesa”, na feliz expressão de Millôr Fernandes.
Depois do AI-5 a censura tornou-se absoluta e a perseguição ganhou ares de “legalidade”. Muitos dos artistas mais incisivos tiveram de seguir para o exílio, como foram os casos de Glauber Rocha, Caetano Veloso e Gilberto Gil, Chico Buarque, Geraldo Vandré, José Celso, entre muitos outros. A lista seria longa. No Brasil, os artistas não tinham condições de exercício profissional e estavam ameaçados fisicamente pela ditadura.
A arte, que era de vanguarda, passou a ser de resistência. E o desafio passou a ser “driblar” a censura, passando mensagens cifradas que poderiam ser decifradas pelo destinatário mais avisado. No sambão Aquele Abraço, Gil falava do exílio. Em Alfômega, murmurava, entredentes, o nome de Carlos Marighella, o guerrilheiro morto em 1969. Mas o hino da resistência veio mesmo com Chico Buarque e Apesar de Você, cujos versos “Apesar de você/Amanhã há de ser um novo dia”, falava do processo histórico e da inevitável transitoriedade da ditadura. Logo, a música foi censura. Mas foi cantada e ouvida sempre em surdina, ao longo da vigência do AI-5, e cantada a plenos pulmões no réveillon de 1978, quando a lei de exceção foi extinta.

O cinema também apelou para a linguagem cifrada e, muitas vezes, apelou para um barroquismo alegórico para passar pela censura. São casos de Vozes do Medo, um trabalho de direção conjunta, Azyllo Muito Louco, adaptação livre de Nelson Pereira dos Santos para O Alienista, de Machado de Assis, Pindorama, de Arnaldo Jabor, e tantos outros. Foi uma arte típica de um período de fechamento e hoje parece bastante datada. Já outros cineastas encontraram meios diferentes para evitar a censura, cada vez mais vigilantes. Joaquim Pedro de Andrade, em Os Inconfidentes, usa o texto dos Autos da Devassa da Inconfidência para, de esguelha, refletir sobre o momento político. São Bernardo, de Leon Hirszman, adota uma grande obra literária, de Graciliano Ramos, para conduzir sua reflexão anticapitalista. Havia outras “opções”, se o termo cabe. O cinema dito “marginal”, feito com poucos recursos, gera um grito de desespero, criativo, porém politicamente inarticulado, e busca num deliberado mau gosto, expressão para aquele momento da sociedade brasileira. São casos como os de Bang Bang, de Andrea Tonacci, Matou a Família e Foi ao Cinema, de Julio Bressane, entre outros. No teatro, a censura continuava atenta e uma peça como Calabar, de Ruy Guerra e Chico Buarque, esbarrou em seu veto.

O ambiente artístico, sob o AI-5 era o de ocupação de frestas, de espaços deixados pela censura. Mas a história também fazia o seu trabalho e, com a chegada de Geisel ao poder, iniciou-se a política de distensão. A ditadura teve a inteligência de dirigir a arte engajada para o mercado e, com a criação da Embrafilme, direcionou os remanescentes do extinto Cinema Novo para a produção de filmes de mercado. São da década de 70 os maiores sucessos de público do cinema brasileiro, como Dona Flor e seus Dois Maridos, que levou 11 milhões de espectadores às salas de exibição. Muita gente interpreta esse processo de domesticação do cinema, sob a guarida do Estado, como mais eficaz que qualquer lei de censura.
Seja como for, a produção mais crítica continuou a ser feita, embora muito enfraquecida em relação ao que existia antes do fechamento político. O fato de a produção artística ter se mantido durante a década de 70 e produzido ainda algumas grandes obras, pode ser considerado quase como um milagre. A música de Milton Nascimento, Caetano Veloso e Chico Buarque, livros como Reflexos do Baile, de Antonio Callado, peças como Gracias Señor, no Oficina, eram atos de resistência. Mas atos inarticulados, que já não atingiam a sociedade como antes, e nem poderiam fazê-lo, pois se vivia um tempo de medo.

Acreditava-se que após o levantamento da lei de exceção no final de 1978 jorrariam obras deixadas no fundo da gaveta. Não foi o que aconteceu. Com algumas notáveis exceções, a década de 1980 foi das mais medíocres no plano artístico, embora embalada pela esperança das Diretas-Já. Algo se quebrara ao longo da fase mais feroz da ditadura e a atividade artística anda levaria tempo para se recompor. E nunca mais seria a mesma dos anos 60, mesmo porque o tempo já era outro. No silêncio da história, a presença da indústria cultural se intensificou, e a “arte para o mercado” parece a fómula mais eficaz para a esterilização da arte contestadora e radical

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