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O adeus apressado a Philippe Noiret

Luiz Zanin Oricchio

25 Novembro 2006 | 10h34

Essa semana foi punk para mim. Já contei a vocês que, assim que cheguei aqui em Brasília meu celular tocou, o jornal precisava de uma matéria urgente sobre a morte de Robert Altman. Dois dias depois, estava saindo de uma sessão vespertina de cinema (vi um fime antigo e raro, O Quinto Poder, depois comento) quando o maldito celular toca de novo. Desta vez era Philippe Noiret quem acabara de ir.Tinha uma hora para entregar o texto e estava longe do hotel. Pedi uma carona a um amigo, cheguei ao Hotel Nacional e escrevi na base do piloto automático. Com todas as imperfeições e omissões, este foi o texto que saiu e o compartilho com vocês. Abraços.

Philippe Noiret, o projecionista de Cinema Paradiso, o Pablo Neruda de O Carteiro e o Poeta e de tantos outros personagens importantes no cinema, morreu ontem, de câncer, aos 76 anos. Foram os dois papéis que deram fama internacional a este ator nascido em Lille, e um dos mais amados do mundo.

Em sua longa carreira, Noiret tem seu nome nos créditos de mais de 150 filmes. O primeiro deles, de Agnès Varda, La Pointe Courte. Mas foi com o estranho Zazie no Metrô, de Louis Malle, que a assinatura Philippe Noiret se tornou familiar aos franceses. E como nessa época a cultura francesa tinha mais influência no mundo do que hoje, tornou-se também familiar aos outros povos, Brasil incluído. Em Zazie, que faz alguns anos foi relançado com cópia nova, Noiret faz o tio da heroína um tanto surreal inventada por Malle. Está gozado, como quase sempre.

Mas nem sempre Noiret foi cômico. Aliás, seu prêmio como melhor ator pela Academia Francesa foi por Le Vieux Fuzil, no qual interpreta um médico envelhecido durante a Ocupação nazista. Sua mulher e filha são mortas na guerra e ele dedica o resto da vida à vingança. Curiosamente, seu outro César se deu por seu papel de major da 1ª Guerra em A Vida e Nada Mais, de Bertrand Tavernier, diretor com quem trabalhou em diversos filmes. Noiret era brilhante, tanto nos papéis cômicos como nos trágicos.

Mas, curiosamente, os dois filmes que o fizeram famoso exploram com sabedoria seu ar bonachão e de bem com seus semelhantes. Em Cinema Paradiso, ele é o projecionista Alfredo, que se queima ao fazer uma sessão em praça pública para seu amigo mais moço. O filme de Giuseppe Tornatore comoveu o mundo e ganhou o Oscar de produção estrangeira.

Em O Carteiro e o Poeta, de Michael Radford, Noiret interpreta o poeta Pablo Neruda, exilado na Itália por razões políticas. O livro, baseado na obra de Antonio Skármeta, fala do relacionamento entre dois seres muito diferentes, e que acabam por se compreender entre si. No caso, o carteiro, magnificamente interpretado por Massimo Troisi, que já estava doente quando fez o papel e veio a falecer um dia depois de terminada a filmagem.

Esse ambiente de emoção envolve e dá cor ao filme de Radford, que chegou a ser indicado na categoria principal de melhor filme do Oscar, fato que não ocorria com uma produção não-americana desde a indicação de Gritos e Sussurros, de Ingmar Bergman. O papel de Noiret é magnífico. A do exilado que recebe uma copiosa correspondência, entregue por um carteiro ignorante, porém ávido de saber, e que gostaria de se tornar poeta, também ele.

O próprio Skármeta já havia filmado seu livro Ardente Paciência com esse nome. Mas a refilmagem de Radford é que colocou os holofotes sobre essa história humana e que mostra, afinal, a abertura para o diálogo e o sentido de poesia, que é comum a todos os homens. Esse sucesso se deve, com certeza, ao verdadeiro ‘duelo’ de interpretações entre Troisi e Noiret, dois instrumentos afinados em seu ofício.

Mas, quem acredita que Noiret só fizesse papéis bonzinhos, deve-se lembrar de A Comilança, o hard core artístico de Marco Ferreri, que chocou o mundo em 1973. A história, para quem é daquele tempo, ficou bem conhecida. Quatro amigos se reúnem para comer e para transar até morrer. São interpretados por quatro grandes atores: o próprio Noiret, Marcello Mastroianni, Ugo Tognazzi e Michel Piccoli. Ferreri era um anarquista. Acreditava que a humanidade estava entrando em sua era pós-industrial, quando o que importava era se empanturrar. Uma era consumista, também tematizada depois por Pasolini em Salò. Comer até arrebentar. E lá estava Noiret, debochado, como juiz guloso, na cama como na mesa.

Essa carreira se fez de papéis protagonistas, como os que o tornaram conhecido, mas também de pequenos papéis. Grandes atores às vezes funcionam como coadjuvantes de luxo e roubam a cena quando ocupam a tela. É, no fundo, a marca dessas autênticas feras do cinema que detêm o magnetismo. Entram no campo visual e não podemos desgrudar os olhos deles. Noiret era dessa raça. Abençoada.