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O adeus ao grande Claude Chabrol

Luiz Zanin Oricchio

12 de setembro de 2010 | 11h46

E lá se foi o grande Claude Chabrol, aos 80 anos. Eu estava em contato com o Brasil, para ver se as minhas matérias do final do Festival de Veneza tinham chegado bem, quando me deram a notícia. Fui pego de surpresa. Todo mundo morre um dia. Mas é difícil conceber o mundo sem Chabrol. É difícil não poder mais esperar pelo próximo filme de Claude Chabrol.

O curioso é que ontem à noite mesmo me lembrei de Chabrol no restaurante La Favorita, no Lido, onde fomos jantar depois da premiação. A história vale a pena ser contada. Quando Chabrol foi do júri de Veneza, alguns anos atrás, não saía do La Favorita, restaurante considerado um dos melhores de Veneza no quesito frutos do mar. Chabrol era um gourmet, todos sabem e podia ser visto toda bendita noite, após a exibição dos filmes, numa mesa ao fundo do restaurante. Comendo, bebendo, conversando. Vivendo.

Naquele ano, trouxe um filme fora de competição, Merci pour le Chocolat, com sua musa Isabelle Huppert no papel principal.

Alguém perguntou a Chabrol por que não havia inscrito o filme na competição, preferindo aceitar o convite para o júri. A resposta: “Porque quando você vem como concorrente, eles te pagam três dias de hotel; como jurado posso ficar em Veneza o festival inteiro”. Perguntaram por que gostava de trabalhar com Isabelle Huppert, que aliás estava ao seu lado. Respondeu: “Porque ela tem um ar naturalmente criminal; já avisei ao marido dela”. Assim era Chabrol, um bon vivant, glutão, caloroso, de bem com a vida.

Talvez essa boa disposição tenha feito dele um diretor tão prolífico e tão bom. Foi dele o primeiro longa-metragem da nouvelle vague, Le Beau Serge (no Brasil, Nas Garras do Vício), terminado em 1959, mas lançado no ano seguinte. Para muita gente é sua obra-prima com a história do alcoólatra vivido por Jean-Claude Brially. Mas não sei não. Para mim, talvez seja La Cérimonie, cujo título em português me escapa. Ou Le Boucher, O Açougueiro. Ou alguns desses últimos, A Dama de Honra ou A Comédia do Poder. Chabrol era atento à vida da pequena burguesia, aos hábitos, às classes sociais. Tudo sem discurso, sem ostentação. Havia aprendido a arte da simplicidade. E a manter um sorriso mesmo em situações desesperadas.

Nunca vou esquecer a tirada de Isabelle Huppert (sempre ela), desta vez na pele de uma juíza em A Comédia do Poder. Quando ela vê que está tudo perdido, que não vai conseguir realizar a sua utopia de justiça, que o mundo está definitivamente corrompido, murmura, “Qu’ils se démerdent”. “Eles que se virem”, em tradução amena.

Grande Chabrol, que nos deu momentos inesquecíveis no cinema.

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