O adeus a Jorge Dória
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O adeus a Jorge Dória

Luiz Zanin Oricchio

06 de novembro de 2013 | 22h24

O ator Jorge Dória morreu hoje, aos 92 anos.

Homem basicamente de televisão, Jorge Dória teve presença irregular porém marcante no cinema. De filmes ainda da década de 1940, como Mãe, Somos Todos Irmãos e Maior que o Ódio, ambos pela Atlântica e sob direção de José Carlos Burle, até o recente O Homem do Ano (2006) lá esteve Dória a marcar as cenas de que participava com seu talento. Em Maior que o Ódio, um drama policial, divide o protagonismo com o então galã Anselmo Duarte.

Claro (e justo) que Jorge Dória seja lembrado por sua longa presença na primeira fase de A Grande Família, da Globo, fazendo o papel do pai, Lineu, nessa série criada Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha. Ou, pelo teatro, com tantas encenações, mas uma, em especial, contínua e sempre exitosa, de A Gaiola das Loucas, a peça cômica de Jean Poiret, que parece nunca envelhecer. Mas, para ser justo com Dória, será preciso lembrar também sua imagem impressa na memória do cinema nacional.

Depois dos filmes de início na Atlântida, Dória participa daquele que é considerado o maior filme policial brasileiro de todos os tempos, Assalto ao Trem Pagador (1962), de Roberto Farias. Faz o papel do delegado incumbido de prender os ladrões e encontrar o dinheiro. Seus diálogos com o bandido Tião Medonho (Eliezer Gomes) e sua amante Zulmira (Luiza Maranhão) podem entrar na antologia dos grandes momentos dramáticos do cinema brasileiro.

Esteve presente, talvez não por acaso, em várias versões de Nelson Rodrigues para as telas como O Beijo (1965), Os Sete Gatinhos (1978) e Perdoa-me por Me Traíres (1980). Com sua verve tanto cômica como dramática, sabia perfeitamente compor um tipo “rodriguiano” sob medida, em parte autoirônico, como se deve.

Nos anos 1970, torna-se figura constante da então dominante pornochanchada, fazendo vários filmes do gênero e da então chamada comédia carioca. Por algum tempo sua imagem ficou presa a esses papeis. E, talvez por isso, nos anos seguintes sua presença nas telas tenha se tornado um tanto rarefeita.

Veja a irregularidade da presença de Dória no cinema, ao longo das últimas três décadas. Nos anos 1980 fez apenas quatro filmes. Além do já citado Perdoa-me por Me Traíres (1980), trabalha em O Sequestro (1981), Pedro Mico (1985) e A Dama do Cine Shangai (1987). Então some das telas, dedicando-se ao trabalho na TV, para ressurgir em O Homem do Ano, de José Henrique Fonseca, sua última participação no cinema, já em meados dos anos 2000.

Pode não ser uma trajetória quantitativamente expressiva se comparada às de outros atores. Mas basta revê-lo como o “Velho”, em A Dama de Shangai, de Guilherme de Almeida Prado, ou o dr. Carvalho em O Homem do Ano, de José Henrique Fonseca, para se fazer ideia da dimensão do seu talento na tela. São participações às vezes pequenas, como apêndices da trama principal, mas das quais dificilmente o espectador se esquece. Por quê? Porque vêm impregnadas de um talento de fato diferenciado, de uma intensidade, cômica ou dramática, nada usual. Essas gravam-se na memória. Graças ao toque do ator.

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