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Novo Mundo

Luiz Zanin Oricchio

08 de dezembro de 2007 | 21h25

É de uma hábil mistura de universos cinematográficos que Novo Mundo tira seu encanto. Ou pelo menos, um dos seus encantos. Se nas primeiras imagens, o filme se parece a uma produção neo-realista (ainda que em cores), algumas cenas não deixam de lembrar o universo das fábulas. E, de fato, é com um universo fabuloso, no sentido convencional do termo, que os emigrantes fantasiam o ‘novo mundo’, a América que está do outro lado do oceano, a Terra da Promissão, onde jorram leite e mel e onde legumes e hortaliças podem ter o tamanho de um ser humano.

Para deixar a sua terra natal e ir ao encontro do desconhecido, os emigrantes precisam acreditar nesse tipo de mitologia. E é disso que trata Novo Mundo – não exatamente da emigração ‘real’, mas do imaginário nela envolvido. Isso num país onde esse fenômeno tem importância particular, a Itália. E por motivos que se somam. A Itália foi, no fim do século 19 e começo do 20, um país de emigrantes. Grandes, imensas levas de seus cidadãos deixaram a península e foram em busca de melhores condições de vida em vários cantos do mundo – EUA e América do Sul em particular.

Agora, na abundância européia do século 21, a Itália tornou-se pólo de atração para estrangeiros, e nem sempre desejáveis, como a situação atual de romenos e albaneses não deixa de ilustrar. Na percepção dos seus setores socialmente mais avançados (e supõe-se que cineastas estejam entre eles), a Itália, que foi um país de emigrantes, não sabe tratar bem quem agora a procura para viver. Daí a existência de filmes como América – Tempo de Chegar, de Gianni Amelio, e agora deste Mundo Novo, de Emanuele Crialese (mesmo diretor de Respiro, que também estreou por aqui).

Portanto, Crialese recua no tempo para mostrar a carência material da Sicília no início do século 20, lá onde vive o viúvo Salvatore Mancuso (Vincenzo Amato), que decide embarcar com família, mala e cuia em direção aos Estados Unidos, onde já vive seu irmão. Em companhia dos filhos e da velha mãe parte para a aventura. Outra personagem entra em cena, a inglesa Lucy (Charlotte Gainsbourg), que precisa arrumar um casamento de conveniência para passar pela alfândega americana.

Novo Mundo é um filme de imagens belíssimas, mas nada estetizante. Quer dizer, sua beleza não é vazia, mas vincula-se a conteúdos, idéias e sensações. Pode ser a beleza de pedra de uma Sicília hostil. Pode ser o fantasmagórico mar de leite onde se pode nadar. Pode ser o rosto ambíguo, maroto e angelical de Charlotte. A emigração aparece como uma grande e terrível aventura. O que ela de fato é, sendo o emigrante o herói anônimo de si mesmo. Um herói que desconhece seu heroísmo e deseja apenas sobreviver.

Serviço
Novo Mundo (Nuovomon-do, Itália-Alemanha-França /2006, 124 min.) – Drama/aventura. Dir. Emanuele Cria-lese. 12 anos. Cotação: Bom

(Caderno 2, 7/12/07)

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