Novas veredas de um grande sertão
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Novas veredas de um grande sertão

Luiz Zanin Oricchio

25 de outubro de 2009 | 13h58

viajo
Viajo porque Preciso, Volto porque Te Amo

O sertão é o mundo todo. O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão. A primeira ideia vem de Guimarães Rosa e está no centro do seu extraordinário romance Grande Sertão: Veredas. A segunda é leve modificação de uma prédica de Antonio Conselheiro. O beato de Canudos dizia: “O sertão vai virar praia e a praia vai virar sertão.” No filme de Glauber Rocha, praia foi trocada por mar e assim aparece na letra de Sérgio Ricardo para a canção final do clássico Deus e o Diabo na Terra do Sol, que acompanha o vaqueiro Manuel (Geraldo Del Rey) em sua simbólica corrida rumo ao mar.

Guimarães Rosa tinha razão. O sertão está em toda parte. Ou, pelo menos, impregna a fundo o imaginário da cultura brasileira. Não apenas os livros de Euclides da Cunha, Graciliano Ramos e o citado Rosa como também os principais filmes do Cinema Novo e os do período da “retomada do cinema brasileiro”, situado entre o início dos anos 1990 e princípio dos 2000. Pois agora ele reaparece – e com todo o vigor – no novíssimo Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, da dupla Karim Aïnouz e Marcelo Gomes, que tem exibições programadas para a 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo nos dias 30 – sexta-feira próxima -, 31, 1º e 2.

Com esse título pouco usual, que lembra uma frase de para-choques de caminhão, Aïnouz e Gomes dão seguimento a essa já longa tradição cinematográfica que encontra no sertão o ambiente privilegiado para determinadas histórias, um elemento tão forte que passa a ser, na prática, um dos personagens, se não o mais importante desses filmes.

Podemos lembrar, por exemplo, de O Cangaceiro, de Lima Barreto, que conta as peripécias de um bando que perambula por um “sertão nordestino” recriado, para efeitos de cinema, no interior de São Paulo, mais precisamente na região de Vargem Grande do Sul. A produção tornou-se carro-chefe da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, recebeu o prêmio de “melhor filme de aventuras” no Festival de Cannes de 1953 e teve carreira internacional. Uma de suas atrizes, Vanja Orico, ganhou fama internacional cantando Muié Rendeira e Sodade, Meu Bem Sodade. A tal ponto que participa, cantando, de Mulheres e Luzes, primeiro longa de Federico Fellini, feito em parceria com Alberto Lattuada. O premiado trabalho de Lima Barreto inaugurou o chamado “ciclo do cangaço”, com filmes de qualidade variável e bom apelo popular, contando histórias de violência e romance de cangaceiros – sempre situadas no grande sertão.

Se o ciclo do cangaço tomava o sertão como palco das aventuras de amor e violência, o ambicioso Cinema Novo fez dele outra utilização. São os casos das três obras-primas filmadas e lançadas entre os anos 1963-1964 e que se tornaram conhecidas, entre os especialistas, como a “Santíssima Trindade do Cinema Novo”: exatamente Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber, Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, e Os Fuzis, de Ruy Guerra.

Aqui, o sertão funciona como locação de valor estratégico. Não por acaso ou por motivos decorativos. Como diz o professor da Universidade de São Paulo e ensaísta Ismail Xavier , “o sertão é um lugar mítico dentro do processo de construção de identidade nacional, com forte presença nas formulações do século 19 e da primeira metade do século 20: a vasta região do semiárido do interior brasileiro (centro-oeste e nordeste) é a região emblemática da seca e da miséria ligada à concentração da propriedade da terra, herança dos tempos coloniais”. Portanto, ideal para expor com clareza as contradições sociais enfocadas por um cinema de alta voltagem política.

No caso de Vidas Secas, adaptado do livro homônimo de Graciliano Ramos, a proposta era expressar a prisão sem paredes de uma família de retirantes, castigada pela fome e pelo sol, condenada a repetir a cada vez o ciclo, em aparência interminável, de sua miséria. Já em Os Fuzis, uma multidão famélica é impedida de saquear um armazém protegido pelo Exército, desnudando assim a relação entre o poder do Estado e a defesa da propriedade. E, em Deus e o Diabo, um vaqueiro, essa figura física emblemática do sertão, atravessa as várias etapas da miséria, passando pela conversão religiosa e sua superação, até vislumbrar algo que, se não é ainda uma saída revolucionária, pelo menos lhe aparece como possibilidade de libertar-se do seu destino.

Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo pode ter essa referência ao sertão do Cinema Novo como horizonte longínquo. Mas seu parentesco próximo é com os filmes dos anos 1990 e 2000, que reatualizam a figura do sertão no cinema brasileiro. Por exemplo, O Sertão das Memórias (1996), de José Araújo, Baile Perfumado (1997), de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, Central do Brasil (1998), de Walter Salles, Eu Tu Eles (2000), de Andrucha Waddington, reciclam o cenário sertanejo usando-o para fins diferentes daqueles pensados pelos diretores do Cinema Novo. Seja investindo na chave memorialística como O Sertão das Memórias, ou repensando o cangaço em termos pop, reinventando um “sertão líquido”, caso de Baile Perfumado, usando a paisagem para enquadrar um divertido ménage à quatre como Eu Tu Eles, ou indo ao interior em busca de alguma pureza ou redenção, como em Central do Brasil, o sertão dos anos 1990 e 2000 parece bem diferente daquela aridez sem clemência buscada pelos cinema-novistas.

Se o sertão dos anos 1960 surgia como palco da exploração econômica, das contradições políticas e relações sociais em transe, nos anos 1990 e 2000 ele passa a cenário de outros temas. Adoça-se, por assim dizer. Livra-se daquela dureza insurgente e romantiza-se, como assinala a pesquisadora Ivana Bentes, autora de vários estudos sobre a questão, entre eles The Sertão and the Favela in Contemporary Brazilian Film (em The New Brazilian Cinema, org. Lúcia Nagib, University of Oxford, 2003). Esse sertão “amigável” (friendly) pode funcionar em tons coloridos, amenos, mostrando um mandacaru romântico ou um pôr do sol na contraluz em tom publicitário.

Não é necessário que seja assim, pois o sertão amolda-se às circunstâncias e desejos do artista. Marcelo Gomes, em Cinema, Aspirinas e Urubus (2005) já havia percebido esse potencial ao ambientar nele a história que envolve um alemão e um brasileiro, na época da 2ª Guerra Mundial, para fazer uma reflexão sobre o Brasil e sua relação com o estrangeiro. Mas também para falar da amizade e da solidariedade como valores fundamentais, mesmo em ambiente árido e em tempo de guerra.

Em Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, o sertão funciona como moldura para um drama amoroso contado em primeira pessoa. “Zé Renato (Irandhir Santos) é um geólogo, classe média, que viaja pelo sertão e vai se contaminando por aquela paisagem, por aquele universo da estrada. As imagens refletem os sentimentos de Zé Renato, que está passando por um momento de desenlace amoroso, e aquela frase, que está no título, escrita num banheiro e presente em muitos para-choques de caminhões, se cristaliza em seus pensamentos”, diz o diretor Marcelo Gomes.

Então, há a “paisagem” interna do personagem, desolada pela separação, que se rebate na paisagem externa sertaneja, atravessada nesse road movie existencial. Mas o filme não se conforma a um personagem ensimesmado. Ao tentar o reencontro consigo, o geólogo Zé Renato não pode deixar de observar o que se passa em volta: “Esse é um mundo em transformação. Um Brasil do interior, mas que vive um processo de modernização desenfreada, esdrúxula, uma fricção entre o rural e o urbano”, diz Marcelo Gomes.

Cada época reinventa o seu sertão de acordo com suas possibilidades e necessidades. Ele, o sertão, continua em toda parte, como sempre. É o mundo todo.

(Caderno Cultura, 25/10/09)

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