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Novas luzes sobre a trajetória de Simone de Beauvoir

Luiz Zanin Oricchio

24 Fevereiro 2008 | 12h30

‘Castor’ era como Sartre chamava Simone de Beauvoir na intimidade e nas cartas. Castor de Guerre é a nova biografia de Simone, escrita no centenário do seu nascimento por Danièle Sallenave. O livro é destaque da Magazine Littéraire em sua edição de janeiro e Danièle, a entrevistada principal.

Ela destaca como, para as mulheres de sua geração, Simone foi figura central, referência permanente, em especial em razão de O Segundo Sexo, livro que deu régua e compasso ao feminismo moderno. Danièle lembra também da atividade da escritora durante momentos cruciais da história francesa, como a guerra da Argélia, e como foi fundamental em sua formação.

No entanto, a opção da biógrafa é ir dos textos à vida e não o contrário. ‘Estudar a obra para deduzir a mulher complexa e múltipla que ela foi, menos aparente do que aquela que ela desejou ser’, diz. Simone foi uma combatente de todas as horas por uma causa, a da liberdade. Mesmo que não tenha sido ‘sensível à História’, ou mais precisamente, aos acontecimentos políticos, pelo menos antes da Segunda Guerra Mundial.

‘É que, para ela, tudo tinha de passar pela palavra’, garante Danièle. A biógrafa deduz essa extrema vocação de escritor (o verbo é tudo) pela leitura dos Cahiers de Jeunesse, diário que Simone manteve de 1926 a 1930. ‘Viver, amar, estudar, nada deve ser deixado ao acaso. Tudo é objeto de um projeto e de um retorno sobre si mesma. Ela deseja ser esse ‘castor de guerra’ desde os 18 anos.’ Escreve muito e sobre tudo, em busca de si. Descobre a filosofia. ‘Seus engajamentos políticos, no sentido sartriano do termo, se dão no quadro de um engajamento mais geral, que engloba todos os aspectos da vida.’

Nessa busca totalizante pela autenticidade, dos relacionamentos pessoais à política, Simone teria sido, sempre segundo sua biógrafa, ‘ainda mais radical do que Sartre’.

Há um tópico, se não polêmico ao menos inusual, pois se considera que Simone deveria seu engajamento político a Sartre, de quem se torna companheira ainda muito jovem. Mas Danièle entende que o interesse pela política, e a conseqüente necessidade de intervenção no social, vem não por influência de Sartre mas, justamente, do seu rival, o amante americano de Simone, Nelson Algren. ‘Com Algren ela descobre a realidade dos bairros sórdidos de Chicago, algo diferente do tradicional modelo francês e burguês que compartilha com Sartre.’ Essa experiência teria sido decisiva, e aparece nos textos.

Simone busca uma certa transcendência na política, qualidade que não se encontra no dia-a-dia banal das lutas pelo poder. Ela acompanha Sartre nesse cotidiano de luta durante o tumultuado período da Guerra Fria porque, de alguma forma encontra aí alguma ressonância da sua visão radical da existência. ‘Há em O Segundo Sexo um capítulo no qual ela presta homenagem à paixão dos grandes místicos pelo Absoluto. Esse apetite de Absoluto será satisfeito, em Simone, pela idéia da Revolução, o sentimento de assistir à eclosão de um mundo novo’, diz Danièle.

Mas é em Memórias de Uma Moça Bem-Comportada que a biógrafa encontra sua maior fonte de inspiração. ‘É um livro literariamente magnífico. Eu o li aos 20 anos com o sentimento de que havia lá um verdadeiro modelo de liberdade.’

(Cultura, 24/2/08)