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Nos bastidores, a irreverência dos Titãs

Luiz Zanin Oricchio

20 de janeiro de 2009 | 09h11

Em 1986, Branco Mello, integrante dos Titãs, comprou uma câmera VHS e passou a registrar o cotidiano e os bastidores do grupo de rock paulistano. Essas imagens e mais material de arquivo ou gravado diretamente da TV fornecem a matéria-prima para o filme Titãs – A Vida Até Parece Uma Festa, co-dirigido por Mello e Oscar Rodrigues Alves.

Sem qualquer preocupação cronológica, o filme apresenta-se como um painel da história do conjunto, de 1982 até os dias atuais. Não foram poucas mudanças e nem se restringiram àquelas naturais transformações trazidas pelo tempo. Da aparência juvenil dos verdes anos aos hoje senhores na faixa dos 40 anos, o grupo manteve intacta sua bela irreverência, seu senso de humor afiado e atitude desafiadora diante da vida. Isso não se perde.

Mas as mudanças na própria composição do conjunto não foram poucas. Desde a época em que formavam um noneto, com o vocalista Ciro Pessoa, passando pelas saídas de dois componentes como Arnaldo Antunes (em 1991) e Nando Reis (2002), o grupo foi se alterando sem perder suas características principais. É um modelo de permanência na transformação. E que não se desgasta nem mesmo com a perda de Marcelo Fromer, que morreu de maneira trágica, atropelado em São Paulo.

Errático no tempo, o filme adota como fio condutor essa identidade musical, e, digamos assim, existencial. A opção, parece, foi a de nada esconder, o que é coerente. Vê-se a ligação intensa com o público jovem em espetáculos como os do Rock in Rio, por exemplo. Mas não se omite a presença de álcool e drogas na trip do grupo. E, acima de tudo, não se deixa de mencionar a prisão de Tony Bellotto e Arnaldo Antunes por posse de heroína em 1985. A ocorrência motivou a música Polícia, interpretada com fúria impressionante. Para quem não compreende por que motivo o rock é capaz de canalizar a pulsação, a energia e o sentido libertário dos mais jovens, esse trecho é dos mais instrutivos.

Há muitas opções quando se dispõe de material bruto como o recolhido por Branco Mello. Pode-se montá-lo de maneira ordenada, intercalando cenas filmadas no tempo presente, com voz off explicativa, etc. Escolheu-se deixar que o material falasse por si e conservasse sua impureza original. Se todos os momentos importantes da trajetória dos Titãs lá aparecem, eles não são nunca explicados, deglutidos ou apresentados de maneira bem comportada ou bonitinha; essa seria, de certa maneira, uma traição da forma ao conteúdo da banda. Do jeito que está, o filme faz jus à proposta expressa por Nando Reis em determinado momento: eles queriam continuar a fazer um rock denso, barulhento e sujo. Assim é o filme. Para o seu próprio bem.

Claro que o filme irá agradar em cheio quem já é fã dos Titãs. De fato, não é a toda hora que se pode ver os ídolos em tela grande, com ótimo som, e quase em sua intimidade. Por outro lado, como tem acontecido com outros filmes musicais, este também pode ser simpático mesmo a quem não curte o som pesado dos Titãs. Acontece isso no cinema. Até quem jamais colocou um CD do grupo para ouvir hits como Sonífera Ilha ou Bichos Escrotos vai entender como e por que eles foram, e continuam sendo, expressão da podreira nacional na pós ditadura militar.

(Caderno 2, 20/1/09)

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