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Norma, o rosto belo e expressivo *

Luiz Zanin Oricchio

10 de outubro de 2013 | 19h24

Ninguém que escreva sobre Norma Bengell deixará de lembrar o primeiro nu frontal do cinema brasileiro em Os Cafajestes. Não que a informação seja desimportante. Mas talvez sirva para encobrir o que existe na cena, além da exposição do corpo.

Vamos relembrar. Norma toma banho no mar, nua. O “cafajeste”, Jece Valadão, decide recolher as roupas da moça, deixadas na areia e sai com o carro. Dá uma volta e retorna em companhia do outro, Daniel Filho, este munido de uma máquina fotográfica. Os dois no carro, circundando e assediando Norma. Jece, que dirige, toca a buzina sem parar; Daniel fotografa e imita gritos de índios. Como se estivessem cercando uma caravana num western. A câmera fica em Norma, desesperada, cansada à exaustão, vencida, humilhada, por fim suplicante. O corpo está nu, contra a areia branca, mas o que vemos é o rosto.

Face já conhecida como imagem da malícia em O Homem do Sputnik, de Carlos Manga, no qual ela cria uma paródia inesquecível de Brigitte Bardot, para encanto de Oscarito.

Rosto eternizado em Noite Vazia, de Walter Hugo Khouri, em que ela e Odete Lara interpretam as prostitutas que saem com o rico Mario Benvenutti e o jovem angustiado Gabriele Tinti. O que prometia ser uma noite de prazeres, torna-se longa e penosa travessia da madrugada, em que o sexo não é libertação, mas apenas mais uma face da vacuidade existencial.

Pense na carioca Nina, que, com sua beleza, encanta, mas se enreda nos mistérios mineiros de A Casa Assassinada, de Paulo César Saraceni, inspirado no romance de Lúcio Cardoso. Pense na personagem da mãe de família Felicidade, cujo nome é uma evidente ironia, em Mar de Rosas, de Ana Carolina.

Pense nessas cenas, apenas para constatar que Norma Bengell não foi apenas um rosto bonito e um corpo deslumbrante, quando jovem, mas uma das atrizes de rosto mais expressivo do nosso cinema.

Além disso, junto com outras mulheres, em especial Leila Diniz, Norma simbolizou a liberação feminina numa era de revolução dos costumes mas, vista à distância, extremamente conservadora. Teve problemas por seus papéis no cinema e por suas ideias políticas. Saiu do Brasil, tentou carreira na Itália, onde trabalhou em filmes pouco expressivos. Mas O Mafioso, de Alberto Lattuada, no qual contracena com Alberto Sordi, é divertido e interessante.

Há pouco a destacar em sua carreira como cineasta. Eternamente Pagu é ok, mas O Guarani é um desastre. Além disso, Norma enredou-se na prestação de contas dessa adaptação da obra de José de Alencar e tornou-se inadimplente. Uma série de golpes – a perda da companheira, doenças e dificuldades financeiras – tornaram seu fim muito pior do que deveria ter sido. Sobra seu imenso talento como atriz, registrado em alguns filmes de antologia do cinema brasileiro. Isso não lhe podem tirar.

* Artigo publicado no Caderno 2, parte do material sobre a morte da atriz Norma Bengell

 

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