Norma Bengell (1935-2013)
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Norma Bengell (1935-2013)

Luiz Zanin Oricchio

09 de outubro de 2013 | 11h23

Morreu Norma Bengell. 78 anos, câncer no pulmão. Norma já vinha apresentando problemas de saúde havia muitos anos. Tornara-se paraplégica e locomovia-se em cadeira de rodas. Há seis meses apareceu o câncer.

Como lembrar essa carreira marcante no cinema?

Bem, alguns momentos são inevitáveis.

Ao sabor da memória: imitando Brigitte Bardot em O Homem do Sputnik, fazendo charme para Oscarito.

O nu frontal em Os Cafajestes, de Ruy Guerra. A sequência é de antologia, o carro a perseguindo em círculos, na praia, ela, desesperada, expondo sua nudez. A cena é lembrada pelo nu frontal, mas não por sua violência chocante.

Ao lado de Odete Lara, como garota de programa, em Noite Vazia, de Walter Hugo Khouri. Ambas contracenando com Mario Benvenutti e Gabriele Tinti. Com quem, aliás, ela se casou e foi para a Itália.

Em O Mafioso, de Alberto Lattuada, contracenando com Alberto Sordi. Ela faz a mulher milanesa e loiríssima do siciliano vivido por Sordi, e escandaliza a família dele.

Faz um papel secundário em O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte, nossa única Palma de Ouro.

Lembro-me dela como mulher já madura em Mar de Rosas, de Ana Carolina.

Está também em A Idade da Terra, o último Glauber Rocha

De qualquer forma, a grande fase de Norma se concentra nos anos 1960 e 1970, quando cantava (gravou com Tom Jobim e João Gilberto) e provocava escândalo e inveja nas telas. Vinha do teatro rebolado, passou pela chanchada e foi aceita no clube do Cinema Novo. Na juventude, era de uma beleza impressionante. Mas envelheceu mal, como Brigitte Bardot, por coincidência.

E sua trajetória como cineasta não é nada memorável. Eternamente Pagu, ok. O Guarani é muito fraco, além de enroscado em prestações de contas que amarguraram Norma até o fim. Acho que se tornou arredia por causa disso (ou também por isso). Tinha um projeto, junto com o documentarista Silvio Tendler, sobre o grande ilustrador e cartunista J. Carlos. Não sei se já haviam começado alguma coisa.

Lembro de tê-la encontrado há uns 20 atrás numa feijoada da mostra de cinema do Rio (Acho que era ainda mostra Banco Nacional) e um colega perguntou se o cinema brasileiro iria recomeçar de vez (era o início da Retomada). Sarcástica, Norma respondeu: “Sim, vamos voltar a fazer filmes para vocês terem do que falar mal”. É aquela história: melhor não conhecer de perto as musas da juventude.

Ficam as imagens maravilhosas que deixou em alguns filmes memoráveis. Minhas favoritas? Não fujo ao óbvio e destaco a cena famosa de Os Cafajestes. A paródia de Brigitte Bardot em O Homem do Sputnik. Mas quero lembrar o momento de melancolia, com Odete Lara, em Noite Vazia. Na minha memória, é quando a atriz foi mais profunda e atingiu suas possibilidades dramáticas. É inesquecível.

Descanse em paz, Norma.

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