As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Nome Próprio

Luiz Zanin Oricchio

18 de julho de 2008 | 19h35

Como nas guerras ou nas tramas de espionagem, há muita desinformação em torno de Nome Próprio, novo longa-metragem de Murilo Salles. Ok, é baseado, ou inspirado, nos livros Máquina de Pinball e Vida de Gato, além de textos de blogs de Clarah Averbuck. A autora, que afeta personalidade difícil, não gosta de ser chamada de blogueira. É escritora. Certo. Não se sabe também se gostou ou não da versão de seus textos para a tela. Afinal, participa de debates de lançamento com o diretor, e fez restrições ao filme no blog – o atual Adios Lounge. O quanto de sinceridade existe nisso tudo, ou é apenas um daqueles casos em que o autor fica tomado pelo personagem?

Bem, existem algumas aproximações entre Clarah e Murilo, uma delas em particular – ambos adoram John Fante. Como ela não escreveu Pergunte ao Pó, e ele não o filmou, encontraram-se em torno da Máquina de Pinball. Se você notar proximidade temática e de estilo entre Averbuck e Fante não terá sido mera coincidência. Todo mundo gosta de Fante. Bukowski gostava.

Como fica, então? Melhor prestar atenção no filme e deixar essas falsas polêmicas para lá. A história é a de uma garota, Camila (Leandra Leal), aspirante a escritora e que se exercita em seu blog, postando impressões do cotidiano. Aliás, cotidiano dos mais movimentados porque Camila é uma espécie de Arturo Bandini (personagem de Fante) ou Bukowski de saias. Bebe como um estivador, fuma, toma bolinhas, dorme com meia São Paulo.

Percebe-se que Murilo desejou fazer um estudo do desespero juvenil contemporâneo. Na era da internet – quer dizer, num tempo em que a obsessão em comunicar-se apenas camufla o fato de que nunca as pessoas foram tão isoladas em si mesmas. O filme é deliberadamente ”sujo” (nunca embeleza situações ou cenários), fotografa em registros frios e claustrofóbicos. Pouco sai à rua; não se vê o horizonte. Quase todo o tempo é passado nos apartamentos precários onde mora a moça, ou em botequins que freqüenta. Na proposta, o filme é interessante. Para enfrentá-lo, o espectador vê-se obrigado a conviver 1h54 com uma personagem literalmente insuportável.

A visão do autor sobre a juventude da internet não é muito suave. Camila parece um valentão de bar, dotado de um centro frágil como cristal. Procura construir-se pela escrita. É seu trunfo e possível salvação. Não sabemos se a autora conseguiu enxergar-se na personagem. Não interessa. Importa é o sentimento que ela desperta em nós, espectadores – um misto de irritação e ternura.

(Caderno 2, 18/7/08)

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.