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“Noivas” que testemunham um mundo em crise

Luiz Zanin Oricchio

26 Abril 2007 | 11h33

Não se pode negar que existe certa beleza em Noivas, do grego Pantelis Voulgaris. Também seria inútil (e muito fácil, porém tentador) apelar para o sobrenome do cineasta e dizer que alguma coisa da boa inspiração inicial se perde numa certa vulgarização dos sentimentos, algo meio novelesco – e no mau sentido do termo. Nem assim, relativizando, seria justo dizer que Noivas seja mau filme. Apenas se adocica demais, e o faz justamente quando isso deveria ser evitado.

Basicamente se poderia dizer que Noivas é um caso particular daquilo que se poderia chamar de ‘as dores da imigração’. Examina aquele sentimento, em geral contraditório, da pessoa que sai do seu país para tentar a vida em outro. Vive um sentimento de esperança, por um lado, e de desenraizamento, por outro. Mais ainda no caso em questão, em que as moças saem de vários lugares conflagrados – Grécia, Turquia e União Soviética – prometidas em casamento, por correspondência, com maridos que encontrarão no final da viagem, nos Estados Unidos.

De certa maneira, essas moças são testemunhas de um mundo em crise. Na Rússia, vive-se a revolução e a guerra civil. Há guerra também entre Turquia e Grécia. Nesse ambiente, todos sofrem e elas são como que emissárias de suas famílias em busca de uma estabilidade que não encontram em seus países. Claro que, durante o percurso, terão de se haver não apenas com seus problemas pessoais, como com alguns espertalhões que se aproveitam de sua fragilidade.

No interior de um navio se passa quase que o tempo todo esse drama coletivo. Devidamente individualizado, no entanto, para que funcione, em termos de uma dramaturgia mais acessível, digamos assim. Então, destaca-se do conjunto de 700 viajantes a grega Niki Douka (Victoria Haralabidou), que vai ao encontro de um conterrâneo, mas durante a viagem conhece um fotógrafo americano, Norman Harris (Damian Lewis). Há também Haro (Evi Saoulidou), que, forçada a emigrar, não conseguirá esquecer o amor que deixa em terra.

É muito possível que se a direção permitisse à história seguir seu curso sem tantas atmosferas musicais e sem tantos efeitos fotográficos adocicados, o filme teria uma progressão dramática menos sofrida. No final, sobra uma meditação um tanto condescendente do drama da imigração, uma visão um tanto light desse tema que vai além do seu tempo histórico e se mostra cada vez mais atual no mundo globalizado, e nem por isso menos hostil a quem vem de fora.

(SERVIÇO)
Noivas (Brides, Grécia/2004, 128 min.) – Drama. Dir. Pantelis Voulgaris. 14 anos. Espaço Unibanco 2 – 14h10, 16h40, 19h10, 21h40. Cotação: Regular