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Luiz Zanin Oricchio

31 de dezembro de 2012 | 16h30

Depois de 15 anos à frente de uma ditadura sangrenta, Augusto Pinochet resolveu submeter-se a um referendo popular para lhe garantir mais oito anos no poder. Pinochet lá estava desde setembro de 1973, quando derrubou o governo socialista de Salvador Allende. Como se sabe, plebiscitos e referendos, feitos sob ditaduras, costumam ser favoráveis a quem detém os cordões do poder. No Chile a história foi outra. É desse fato verídico que trata, sob forma ficcional, este excelente No, de Pablo Larraín.

O filme teve carreira vencedora antes de estrear comercialmente. Ganhou a Quinzena dos Realizadores, em Cannes, faturou o prêmio de público da Mostra de São Paulo e é um dos nove finalistas que disputam as cinco vagas ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Está com tudo.

Vendo-o, compreende-se por quê. Larraín dribla o que poderia ser o monótono relato de bastidor de uma votação. Faz um filme trepidante, cheio de emoção e paixão – nunca deixando de lado o raciocínio e a reflexão política que são esteios fortes do seu cinema. No é o fecho de uma trilogia informal da experiência traumática do
Chile sob o regime militar de Pinochet, que começara com Tony Manero e Post Mortem.

Esse ânimo do filme vem muito da maneira como ele é dirigido, de forma rápida e direta, com um sentido de urgência de todo adequado à época em que os fatos aconteceram, em 1988, com pressão crescente pela redemocratização. Em um filme histórico, captar o momento é tudo. Mas essa energia vem também do ator mexicano Gael García Bernal, que interpreta com fôlego o publicitário René Saavedra, contratado para dirigir a campanha do Não. Fundamental também é o registro em U-Matic, suporte de vídeo utilizado na época pelos telejornais. Dá a impressão de que vemos a História (com agá maiúsculo) sendo desdobrada à nossa frente.

René assume a campanha num momento em que tudo os que os opositores a Pinochet queriam era marcar posição. Não tinham a menor esperança de vencer e havia quem nem quisesse participar para não emprestar credibilidade a um jogo de cartas marcadas. A diferença, com a entrada de René, é que posturas negativistas, ou apenas românticas, são descartadas em favor de um realismo militante. Ao invés do chororô ou da nostalgia, entra uma atitude assertiva, de quem está olhando para o futuro com confiança.

Em suma, René vendia o Não como quem vende um bom produto. Aproveita a estreita margem de manobra concedida pela ditadura para manter a aparência de pleito democrático e consegue jogar no espaço pequeno que lhe é concedido. Com sua energia e bom humor, parece porta-voz de uma visão de mundo francamente republicana. Combate uma ditadura e mostra que, para vencer, às vezes é preciso isolar certo fanatismo fundamentalista de quem tem razão.

No é o tipo de filme que não perde nunca seu suspense, mesmo que o desfecho seja amplamente conhecido. Revisita uma página importante da história chilena e latino-americana, e o faz em ritmo de thriller político como havia muito não se assistia.

 

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