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No tempo em que não havia corrupção no Brasil

Nos anos 1970 se tinha ideia de um país feliz, sereno e livre de corrupção. A realidade era outra. Só que poucos a conheciam

Luiz Zanin Oricchio

24 de março de 2016 | 10h25

 

 

Uma pequena história pessoal. No início dos anos 1970, arrumei meu primeiro emprego. Na verdade, um estágio remunerado para estudantes de psicologia. Contratados por uma grande construtora, que fazia a parte civil da futura usina hidroelétrica de Água Vermelha, no Rio Paraná, participaríamos de um estudo sobre as relações de trabalho na barragem.

Ficávamos hospedados na cidade de Fernandópolis e saíamos de madrugada para a obra. Voltávamos no final da tarde. O trabalho era árduo, mas muito instrutivo, nem tanto pelos motivos pelos quais havíamos sido contratados, mas pelo contato com os trabalhadores. Para o nosso grupo, foi uma grande imersão no Brasil. Ouvíamos histórias estarrecedoras, de peões de obras que haviam escapado ao trabalho escravo em fazendas, com o risco da própria pele, e agora achavam o máximo trabalhar de sol a sol na barragem, mesmo por um ganho irrisório, pois, pelo menos, podiam ir à zona do meretrício uma vez por semana e, caso enjoassem do emprego, eram livres para abandoná-lo. Ouvi muitos casos desse tipo.

Na verdade, no nosso tempo livre não havia muito o que fazer senão bebericar e conversar. Nos fins de semana jogávamos bola e, à noite, às vezes íamos confraternizar no, digamos assim, bairro boêmio da cidade, que era fechado à meia-noite por determinação do delegado, o dr. Paixão (não estou inventando), a pedido da companhia. Afinal, se as comemorações se prolongassem madrugada adentro, o trabalho do dia seguinte poderia ficar comprometido.

Desse modo, nos botecos e boates da zona, ou no bar do hotel, conversávamos muito. Éramos jovens, uma equipe multidisciplinar de estudantes universitários, e tínhamos a sede de aprendizado da juventude.

Entediados pelo longo período longe de casa, os engenheiros e altos executivos da empresa logo se entrosaram conosco. Eles eram maduros e vividos, e nós, uma rapaziada ainda inexperiente, ávida de conhecimento. O álcool solta as línguas e a solidão cria amizades rápidas, propícias à troca de confidências. Eles nos contavam coisas de estarrecer.

Uma delas, a grande frequência de acidentes de trabalho e mortes na construção da barragem. Um engenheiro me disse que essas mortes de trabalhadores poderiam ser evitadas caso fossem respeitadas normas básicas de segurança. Como a barragem era construída a toque de caixa, essas normas eram “flexibilizadas”. E, embora soubessem que o desleixo e o ritmo acelerado provocariam muitos acidentes fatais, tudo era considerado dentro da “normalidade”. A vida do trabalhador brasileiro sempre foi barata. E aquela era uma gente que vinha não se sabe de onde, sem família, sem eira e nem beira. Eram facilmente substituíveis.  

Outra coisa da qual falavam era da existência de um escritório secreto dentro da barragem. Este tinha como única finalidade fraudar contas e superfaturar as despesas. A construtora trabalhava como concessionária da então empresa estatal de eletricidade do Estado, que era quem a remunerava. Os executivos falavam também de propinas e gorjetas que tinham de ser pagas a políticos e outras autoridades para que o esquema de superfaturamento pudesse se manter.

Naquele tempo, vivíamos sob ditadura. Nada disso, nem as mortes dos trabalhadores e muito menos o escoamento de dinheiro público para bolsos privados, eram noticiados. A imprensa de nada sabia e, caso soubesse, não poderia publicar.

Desse modo vivíamos num país feliz, ordeiro e livre de corrupção. Não à-toa muitos sentem saudades dele. 

 

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