No país das Maravilhas
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No país das Maravilhas

Luiz Zanin Oricchio

22 de abril de 2015 | 10h58

maravilha

As Maravilhas, de Alice Rohrwacher, tem muito a ver com a inútil busca do mundo natural neste tempo em que as cidades atingiram tal artificialismo que parecem não mais satisfazer as necessidades das pessoas. Ou, por outra, podem até satisfazer, mas as estão enlouquecendo.

Temos então a história dessa família instalada no campo e dedicada à apicultura. Tira mel de abelhas, o industrializa e vende, tudo de modo artesanal. Quem faz isso? Um casal e suas quatro filhas. Aos quais vêm se juntar uma cunhada, como agregada, e depois um menino que não fala uma única palavra em italiano. A diretora ganhou o Prêmio Especial do Júri no Festival de Cannes pelo trabalho, seu segundo longa-metragem como diretora – o primeiro é Corpo Celeste. A dona de casa é interpretada por sua irmã, Alba Rohrwacher, atriz bastante conhecida e premiada na Itália. E há um lado autobiográfico, pois a família Rohrwacher também tem raízes tanto alemãs como italianas e o pai, de fato, dedicava-se à apicultura.

Bem, o que se tem, na sequência, é a descrição, de modo nada retórico, de uma espécie de fim de modo de vida. Como sabe todo aquele que um dia resolveu viver de modo meio lateral em relação à civilização, essa é uma disposição bem mais fácil de desejar que de cumprir. A cultura dominante aperta sempre o cerco e, no caso em questão, a presença de agrotóxicos ameaça o trabalho do pai de família, Wolfgang (Sam Louwyck). As leis higiênicas também se tornam mais rígidas, impondo exigências que nem sempre as empresas artesanais podem cumprir. Além de tudo, há a chegada da TV, em busca do típico da região, ou seja, do “folclórico”. Monica Bellucci interpreta Milly Catena, a apresentadora do show televisivo que foi ao campo toscano, outrora habitado pelos etruscos, para premiar a manifestação mais típica e autêntica do local. Já sabemos, quando a TV busca algo de autêntico, este imediatamente deixa de sê-lo. A TV é uma espécie de Midas ao contrário.

No meio de tudo, e de todos, há a garota Gelsomina (Alexandra Lungu), a mais velha das irmãs e que enfrenta o seu rito de passagem para a idade adulta. Tudo sob os olhos ciumentos do pai, Wolfgang que, como muitos pais, mesmo os mais modernos, não aceita bem o natural crescimento da filha.

Alice adota um estilo de direção bastante singular. A câmera intromete-se no meio de uma família caótica como se fosse um dos seus membros. Em nada sugere qualquer distanciamento. Deixa que os personagens passem na frente uns dos outros e interrompam a clareza dos planos cinematográficos. Nem procura adotar a postura de ordenar essa desordem íntima, típica das famílias muito grandes. As crianças agitam-se, derrubam tudo, brigam entre si, divertem-se. Enquanto o pai grita e se enfurece, a mãe tenta colocar panos quentes, acalmar a todos com sua serenidade, e assim a vida segue. Diga-se, de passagem, que Alba Rohrwacher está magnífica no papel da mamma Angelica, tentando tourear crianças, numa vida materialmente precária e com um marido de cabeça posta nas nuvens.

O filme revela também uma diretora sensível e capaz de mesclar registros para expressar emoções. Paga o preço por isso, na forma de críticas que recaem, sobretudo, sobre a segunda parte de As Maravilhas. Na primeira, Alice mantém o foco num realismo mais palatável. Na segunda, passa a introduzir elementos de estranheza que dão à obra um colorido, digamos assim, “feliniano”. Ora, não se evoca um mestre como Federico Fellini em vão e isso tem sido cobrado de Alice. No entanto, a opção pela estranheza faz todo sentido quando se pensa que a história é vista pelos olhos da pré-adolescente Gelsomina (nome da personagem de Giulietta Masina em A Estrada da Vida, 1954, uma das obras-primas de Fellini).

Desse modo, a sensação de beleza intensifica-se, ao invés de diminuir, quando o registro passa a incluir esses tópicos quase oníricos (o camelo, comprado pelo pai, é um deles) à vida do dia a dia. Nota-se que Alice desejou evocar e, talvez, exorcizar, determinados traços autobiográficos, mas quis fazê-lo sob essa forma que contempla tanto o real como o imaginário, tanto o efetivamente vivido como o sonhado. Mas não é desse jeito mesmo, com essas misturas todas, que trabalha a nossa memória?

 

 

 

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