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No Olho da Rua

Luiz Zanin Oricchio

26 de maio de 2011 | 10h24

Otoniel (Murilo Rosa) tem o mesmo destino de outros tantos milhões de trabalhadores em todo mundo. Profissional competente, com muitos anos de casa, chega um dia ao serviço, é chamado ao Departamento do Pessoal e lhe comunicam que “nada têm contra ele, muito pelo contrário, mas que a empresa passa por um momento de transição”, e blábláblá. Enfim, está no olho da rua – expressão popular que define muito bem a situação de quem se vê demitido e dá título ao filme de Rogério Corrêa.

Tudo se agrava quando Otoniel perde seus direitos trabalhistas ao reagir contra a demissão. Sua mulher está esperando o segundo filho e Otoniel segue o caminho habitual de ganhar (ou tentar ganhar) a vida por conta própria. No caso, fazendo carretos e mudanças com seu carro, meio caindo aos pedaços. Nesse tipo de trabalho provisório, conhece Algodão (Leandro Firmino da Hora, o Zé Pequeno de Cidade de Deus), candidato a cineasta e criador de uma TV pirata com vocação social.

Se a situação que descreve é bem real, talvez No Olho da Rua perca um pouco de foco ao tentar vê-la sob muitos ângulos diferentes. Por simpática que seja a presença de Algodão (e que dá, inclusive, algum respiro de humor a um drama pesado), não parece lá muito integrada à história. Também a presença de um pastor protestante oportunista (Pascoal da Conceição) na fábrica e na vida familiar de Otoniel parece um tanto deslocada, embora cumpra a função de mostrar o papel amortecedor de uma certa religiosidade nos conflitos sociais.

Embora seja filme digno, No Olho da Rua não consegue impor rigor crítico a esse tema contemporâneo. Tema tão atual que vem inspirando filmes em muitos países. São os casos de O Corte, do diretor franco-grego Constantin Costa-Gavras, famoso por sua pegada política, e do criativo A Agenda, de Laurent Cantet. Neste último, o desempregado forja uma relação de compromissos fictícia para que família não perceba que está desocupado. É patético. O desemprego destrói a pessoa ao lhe tirar não apenas o ganha-pão, mas sua identidade social. Mas isso já se sabe e denunciá-lo talvez tenha se tornado inócuo.

Talvez a forma melhor de sensibilizar o público para o problema seria vincular o desemprego estrutural ao próprio modo de funcionamento do capitalismo contemporâneo. Quem mais se aproximou do ventre do Leviatã talvez tenha sido Nicholas Klotz em A Questão Humana, ao desvendar as pulsões em jogo em uma organização e seus efeitos sobre os funcionários de alto escalão. Mas essa imersão radical no sistema, e em seus estratos mais populares, o cinema ainda nos está devendo.

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