No momento mais mesquinho do País, vai-se a sua inteligência mais brilhante: morreu Antonio Candido
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

No momento mais mesquinho do País, vai-se a sua inteligência mais brilhante: morreu Antonio Candido

Luiz Zanin Oricchio

12 Maio 2017 | 10h40

 

 

Parece ironia. No momento mais mesquinho e medíocre da História recente do País, vai-se a sua inteligência mais brilhante. Morreu Antonio Candido Melo e Souza, aos 98 anos. Presença marcante na vida intelectual e política brasileira, Candido fez parte do grupo que fundou a Revista Clima, de grande influência. Junto com Paulo Emilio Salles Gomes, Ruy Coelho, Décio de Almeida Prado e outros instaurou um método crítico e social inovador na então provinciana vida intelectual brasileira.

Esse mesmo grupo viria a fundar o Suplemento Literário do Estado de S. Paulo que, ao lado do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, foi a publicação cultural mais importante dos anos 1950 e 1960. O projeto do suplemento foi escrito por Candido e quem assumiu sua direção foi Décio de Almeida Prado. O Suplemento é, até hoje, marco insuperável do jornalismo cultural brasileiro.

Candido é autor de obras definitivas como Formação da Literatura Brasileira, Parceiros do Rio Bonito, Literatura e Sociedade, entre muitas outras. É uma obra que deixa lastro e seguidores. Ainda será muito analisada, embora a bibliografia sobre Candido já seja bem extensa.

Hoje, quando tucanos intelectuais o chorarem, devem se lembrar que, adepto do socialismo democrático, Candido foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores e jamais renegou suas ideias de esquerda, como virou moda.

Em sua homenagem, transcrevo sua resposta sobre o socialismo em entrevista que deu para a o semanário Brasil de Fato.

O senhor é socialista? 

Ah, claro, inteiramente. Aliás, eu acho que o socialismo é uma doutrina totalmente triunfante no mundo. E não é paradoxo. O que é o socialismo? É o irmão-gêmeo do capitalismo, nasceram juntos, na revolução industrial. É indescritível o que era a indústria no começo. Os operários ingleses dormiam debaixo da máquina e eram acordados de madrugada com o chicote do contramestre. Isso era a indústria. Aí começou a aparecer o socialismo. Chamo de socialismo todas as tendências que dizem que o homem tem que caminhar para a igualdade e ele é o criador de riquezas e não pode ser explorado. Comunismo, socialismo democrático, anarquismo, solidarismo, cristianismo social, cooperativismo… tudo isso. Esse pessoal começou a lutar, para o operário não ser mais chicoteado, depois para não trabalhar mais que doze horas, depois para não trabalhar mais que dez, oito; para a mulher grávida não ter que trabalhar, para os trabalhadores terem férias, para ter escola para as crianças. Coisas que hoje são banais. Conversando com um antigo aluno meu, que é um rapaz rico, industrial, ele disse: “o senhor não pode negar que o capitalismo tem uma face humana”. O capitalismo não tem face humana nenhuma. O capitalismo é baseado na mais-valia e no exército de reserva, como Marx definiu. É preciso ter sempre miseráveis para tirar o excesso que o capital precisar. E a mais-valia não tem limite. Marx diz na “Ideologia Alemã”: as necessidades humanas são cumulativas e irreversíveis. Quando você anda descalço, você anda descalço. Quando você descobre a sandália, não quer mais andar descalço. Quando descobre o sapato, não quer mais a sandália. Quando descobre a meia, quer sapato com meia e por aí não tem mais fim. E o capitalismo está baseado nisso. O que se pensa que é face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele com suor, lágrimas e sangue. Hoje é normal o operário trabalhar oito horas, ter férias… tudo é conquista do socialismo. O socialismo só não deu certo na Rússia.

Mais conteúdo sobre:

Antonio Candido