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No Meu Lugar

Luiz Zanin Oricchio

13 de novembro de 2009 | 13h33

A primeira impressão que se tem de No Meu Lugar, estreia de Eduardo Valente no longa-metragem, é a de um filme muito construido. Talvez até em excesso, em seu rebuscamento de trabalho com tempos diferentes e evolução descontínua da narrativa. Inútil dizer que isso pode dificultar a vida do espectador acostumado à linearidade do modelo cinematográfico comercial ou televisivo. Mas pode servir de estímulo a quem procura no cinema algo diferente como um desafio, talvez intelectual, talvez afetivo.

Nessa “história”, no fundo tão corriqueira, do crime cometido em uma casa, do policial que atende a ocorrência, é afastado e tenta refazer a vida, da mulher que volta cinco anos depois ao lugar onde morou com o primeiro marido, do entregador de compras de um supermercado que parece ter encontrado o amor de sua vida – dessas linhas de enredo, entretecidas, sai um registro multifacetado e nada óbvio da realidade carioca contemporânea.

O que acontece com o trabalho dessas linhas assimétricas é que, pela complexa estrutura temporal, acabam evitando o esquema multiplot das histórias cruzadas, o que virou um estilema, ou quase um clichê, de um certo cinema contemporâneo “de arte”. Aqui, esses desníveis temporais driblam tanto as relações de causalidade mais direta como as “coincidências” às vezes forçadas, presentes nesse tipo de filme. Fica-se, nesse tipo de narrativa adotado por No Meu Lugar, com a impressão mais próxima da vida, com o que ela tem de pequeno, de inexplicável e aleatório.

Nota-se a recusa de fornecer explicações simplificadoras. Embora os termos mais cruciais estejam dados – disparidade de classes sociais, violência urbana, uma certa anomia da metrópole brasileira, etc. – eles não se articulam de modo sociologizante. No fundo, esboça-se apenas um retrato de algumas circunstâncias particulares, embora muito comuns numa cidade como o Rio de Janeiro, apresentado sem nada querer provar. Como as impressões ficam por conta do radar do espectador, as conclusões também permanecem pendentes – para quem se sentir obrigado a tirá-las, por conta própria.

Parece também bastante clara a disposição tanto do roteirista (Filipe Bragança) quanto do diretor Eduardo Valente de evitar os lugares-comuns, não apenas do cinema comercial como do próprio cinema talvez impropriamente chamado “de autor”. Ambos são críticos de cinema e, acostumados a serem exigentes com a obra alheia, devem ter imposto ao próprio trabalho o rigor de uma depuração radical. O que poderia ter redundado num filme original, preciso, porém asséptico, porque excessivamente pensado. Felizmente não é o caso. A colocar sangue nas veias dessa trama no papel tão controlada está um elenco que se comporta muito bem e deve ter conduzido o diretor. Está presente também a empatia com os próprios personagens, que nunca se comportam como marionetes de quem em tese detém o controle do jogo. Têm vida real. Pulsam, sentem e emprestam calor ao filme que se vê na tela.

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