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No bastidor do jogo

Luiz Zanin Oricchio

13 de fevereiro de 2012 | 21h45

Você vai ao Museu do Futebol cheio de paixão e sai de lá repleto de perguntas, o que não quer dizer que o amor pelo seu clube tenha diminuído. Pelo contrário. É essa a intenção de um museu que se deseja antipedagógico e, com o perdão da contradição, pouco museológico. O espanto é o pai da sabedoria, como dizia Sócrates, não o genial jogador morto no ano passado, mas o filósofo grego que viveu no século IV antes de Cristo. É assim também que o espectador deve se postar diante da exposição temporária Vestiário, que abre na quarta-feira para convidados e, na quinta, para o público. Aberto a um olhar novo e a uma nova perspectiva em relação ao esporte que ele crê conhecer tão bem.

 

A exposição consta de 56 fotos de Gilberto Perin, interpretada em 28 obras do artista plástico Felipe Barbosa, e que dialogam com a técnica de video mapping do VJ Spetto. Isso quer dizer que esse espaço mítico, os vestiários dos clubes de futebol, recebem não um tratamento realista, ou jornalístico, mas uma interpretação artística, que permita ao público vislumbrá-lo como espaço mítico.

 

Como diz o curador Leonel Kaz, “Trabalhamos aqui como no filme de John Ford, O Homem que Matou o Facínora, no qual se a lenda é melhor que a realidade, que se imprima a lenda”. Qual a melhor maneira de abordar essa lenda? Não poderia ser de maneira tradicional.

 

E, de fato, não se trata de uma exposição como outras, mas visa levar o espectador a uma experiência desse espaço da intimidade do futebol, onde muitas vezes se decide uma vitória ou uma derrota, que é o vestiário.

 

As fotos de Perin seriam como o aspecto mais palpável desse “espaço sagrado” do futebol, ao qual apenas os jogadores e o técnico têm acesso. As obras do artista plástico Felipe Barbosa, compostas por bolas, chuteiras, caneleiras e outros utensílios, dispostos em forma de instalação que reproduz os armários de um vestiário, enfatizam esse caráter mítico do espaço. Assim como essa impressão fica acentuada pelas animações criadas por Spetto em computador e que serão projetadas em cima das obras dos outros artistas e nas paredes da Sala Osmar Santos, onde está montada a exposição.

 

Essas três modalidades de percepção – as fotos, as instalações, os vídeos – são conjugadas de modo a proporcionar uma experiência única ao visitante. “Uma das sacadas da exposição é essa articulação entre três artes, fotografia, mapping e artes plásticas, que, sobrepostas, permitem trazer alguns dos imaginários que flutuam em torno do espaço íntimo do vestiário”, diz Clara Azevedo, diretora de conteúdo do museu. De fato, cada uma dessas modalidades se articula com a outra, como numa jogada bem urdida de um grande time. Tudo para desvendar, de maneira poética, o que é indevassável por definição e constitui, ainda, o último reduto intransponível do futebol em meio à sociedade do espetáculo e sua vocação de tudo mostrar e transformar em show.

 

Na verdade, o espaço mais escondido, o vestiário, é o que pode revelar mais a fundo a natureza do esporte. Se hoje ele é tão profissional, tão mercantilizado e pragmático, é no vestiário que seus aspectos mais essenciais se revelam. A coesão do grupo é enfatizada nos gritos de guerra, nas rodinhas de incentivo mútuo e nas palavras do “professor”. Mas há também o espaço para as crenças, para velas acesas, ramos de arruda atrás da orelha, imagens de devoção. Conta-se que, no vestiário do Santos Futebol Clube, todos os ruídos cessavam um pouco antes do início do jogo, quando Pelé, já inteiramente paramentado com seu uniforme, meias e chuteiras, se estendia sobre um banco, cobria o rosto com uma toalha e permanecia alguns minutos em silêncio. O que fazia? Tirava um pequeno cochilo antes da partida decisiva? Rezaria uma prece? Pensaria no adversário, na tática a ser empregada para vencê-lo? Ou apenas buscaria seu vazio interior,  aquele silêncio de paz que o preparava para o jogo?

 

Nunca ninguém jamais soube. Assim como (conta-se) não se sabe até hoje o que existe no armário que o mesmo Pelé trancou depois de jogar o último jogo pelo Santos, em 1974. Nunca mais foi aberto e ele não revela o que contém. Está lá, conforme a lenda, do jeito que Pelé o deixou, na Vila Belmiro. Coisas do vestiário, desse espaço de mistério. Mitos do futebol, que povoam o imaginário desse esporte, que é também uma religião para muitos dos seus seguidores.

 

Foi pensando nessa aura mítica, e no que vai além dela, que a exposição foi montada. Como diz Felipe Barbosa, “a mostra discute muitas coisas além do futebol. Alarga o conceito de vestiário, não apenas como local físico, mas como lugar de crença, celebração, fé. Um espaço sagrado, onde somente jogadores têm acesso”, diz.

 

Leonel Kaz lembra também que o vestiário é como um rito de passagem para o jogador. “Ele se despe de sua roupa civil, como a de qualquer mortal, e se veste com o uniforme do seu clube, como quem se prepara para uma batalha”. É nesse espaço que a pessoa física do atleta se transforma na figura do jogador, aquele que veste a cor de um clube ou de uma seleção e entra na arena para representar os torcedores, às vezes um país inteiro. “Uma vez acompanhei a entrada em campo do Pelé, ao lado dele, e nunca esqueci a experiência”, conta Kaz, que torce para o América do Rio. “Aquele barulho da torcida vai subindo até explodir; é algo muito físico, essa passagem do vestiário para o campo de jogo”.
Enfim, o que se tenta é a aproximação, através de da interpretação dos artistas, dessa realidade para sempre escondida dos torcedores. Por isso, o curador da mostra, Leonel Kaz diz que, “ao conceber a mostra, eu brincava que ela seria um misto entre uma exposição e uma alucinação. Por quê? Porque levaria o visitante aos extremos da sua percepção, numa comunhão singular de experiências visuais”.

 

Na superposição de espaços míticos entra o próprio local onde se dará a exposição. O espaço, hoje denominado Sala Omar Santos, em homenagem ao grande inovador da narração esportiva, era antigamente usado como vestiário. Teve esse fim até a construção do Tobogã, quando então os vestiários foram realocados no espaço do velho estádio, inaugurado em 1940.

 

 

O Museu do Futebol

 
Qual a filosofia do Museu do Futebol? Mais do que colocar as pessoas em contato com objetos históricos, a ideia é proporcionar a elas uma imersão na própria experiência do futebol, em seus elementos míticos e narrativos. É um museu pouco pedagógico, no sentido tradicional do termo, que trabalha com a memória e aspectos sensoriais ligados ao futebol e que, por sua vez, procura ligá-lo à cultura e a história do país.

 

Inaugurado há três anos, o museu possui uma estrutura e uma concepção extremamente modernas. “Ele nasce de um tema e não de um acervo” diz a diretora de conteúdo Clara Azevedo. “Não tem relíquias”, completa o curador Leonel Kaz. “O acervo é o próprio visitante”, diz. De fato, em espaço tão lúdico e interativo, o visitante não é um espectador passivo. Ele participa de modo decisivo na construção da sua própria experiência.

 

Participa nas salas nas quais é solicitado a jogar (“as de pebolins são as que exigem mais manutenção”, diz Clara), batendo um pênalti num gol virtual que mede a velocidade da bola, ou participando de outros joguinhos bolados pelos curadores do museu.

 

Mas participa, talvez acima de tudo, com sua memória. Logo ao entrar, vê uma série de figuras com emblemas de clubes estampando as paredes dentre dois andares. O olhar – é inevitável – busca o escudo do time do coração. “Muita gente vem com a camisa do seu time fazer a visita”, diz a diretora. Mas a primeira sala é bastante impressionante, com imagens dos grandes jogadores pairando no ar, como anjos barrocos, em poses improváveis na disputa pela bola. É uma concepção barroca, com movimento e dramaticidade.

 

Em seguida, vêm os dispositivos para registrar e estimular a fabulação do futebol. “O futebol é uma narrativa, ele vive não do real, mas da maneira como os fatos foram contados e transmitidos de uma pessoa a outra.” Num dos dispositivos, vê-se a maneira como algumas personalidades se recordam dos gols fundamentais de sua vida. Enquanto a pessoa narra, o visitante do museu vê o gol numa tela. Galvão Bueno, por exemplo, conta que o gol da sua vida é, de fato…um não gol: o pênalti que o italiano Baggio perdeu na final da Copa de 1994 e deu o tetracampeonato ao Brasil. “Pensei que fosse desmaiar ao longo daquela série de pênaltis”, confessa o narrador da Globo.

 

Para os mais saudosistas, há as narrações em rádio, no tempo em que a transmissão de jogos pela TV ainda era coisa de ficção científica. Assim, podem-se ouvir narradores famosos dessa fase pré-televisiva, como Pedro Luiz, ou mais contemporâneos, como Fiori Gigliotti, famoso por seu romantismo, ou inovadores como Osmar Santos. Muita gente curtiu o futebol pelo rádio e não por imagens. Quer dizer, dependeu da voz de quem o transmitia. Muitas vezes, o futebol resume-se a palavras.

 

Futebol é só alegria? Ledo e ivo engano. Uma sala importante, e das mais visitadas é aquela consagrada à derrota para o Uruguai na Copa de 1950. “Quando a gente ouve risadas dentro da sala, pode apostar que os visitantes são uruguaios”, conta Clara. Em compensação, muitos brasileiros ainda se emocionam com aquela derrota, que Nelson Rodrigues classificou de “tragédia pior que Canudos”. “Muita gente chora, inclusive crianças e rapazes cujos pais não eram nem nascidos na época”, conta. Na pesquisa de imagens sobre o Maracanã sofrendo a perda do título, o Brasil mostrou-se um campo infrutífero. “As imagens vieram todas da Cinemateca Uruguaia”, conta Clara. Ou seja, nossos algozes foram os que melhor documentaram a sua glória…e a nossa desgraça.

 

Ah, sim, para um museu que não se preocupa em relíquias, apenas uma ganhou lugar nobre – a camisa 10 com que Pelé fez o primeiro gol na final da Copa de 1970, contra a Itália. Também com essa, para que outras?

 

Entrevista com Gilberto Perin

 

1) Por que você procurou retratar o universo do futebol por esse ângulo pouco usual, o dos vestiários?

Eu queria resgatar as emoções que os jogadores de futebol sentem no vestiário, atualmente um espaço inatingível para torcedores e Imprensa.  A ideia surgiu das tardes de domingos da minha infância e adolescência, com o som do rádio onde repórteres transmitiam o som dos vestiários com a emoção dos jogadores após vitórias e derrotas. Nos jornais dos dias seguintes, as fotografias revelavam – além das jogadas dentro do campo – o lado humano, feliz, tenso ou vitorioso dos atletas no local mais íntimo, o vestiário. Mas não me interessava só o registro do fato, eu queria colocar o meu olhar sobre o tema, reler memórias das tardes de domingo repletas de futebol.

 

2) Como conseguiu acesso a esse espaço de intimidade dos atletas?

Essa foi a parte mais difícil. Tentei conversar com alguns clubes, o meu projeto era recebido com estranhamento e desconfiança.

Não é fácil conseguir um clube que libere seu vestiário para um projeto como esse. Depois de várias tentativas, através do escritor Aldyr Garcia Schlee (coincidentemente também o criador do uniforme da Seleção Brasileira em 1953) consegui que o G.E.Brasil, da cidade de Pelotas (RS) aceitasse o meu projeto, através do então presidente Helder Lopes.

(Uma feliz coincidência: a equipe do Brasil tem o nome do país, com jogadores procedentes de 10 estados, numa mistura de sotaques e cores. Enfim, uma metáfora brasileira: um clube com uma torcida fanática e que está, desde 2009, superando um momento muito difícil (um acidente na estrada onde morreram alguns de seus ídolos) e não consegue, desde então, voltar para a primeira divisão do futebol do Rio Grande do Sul.)

Depois da autorização, fiz um “pacto de invisibilidade” com os atletas. Expliquei o projeto e combinei que eu ficaria “invisível”, sem interferir na rotina deles dentro do vestiário. Eles toparam e isso possibilitou imprimir a minha visão estética e emocional retratando gente que se encontra em momentos-limites de tensão, alegria, disputa; além de revelar um mundo desconhecido (e proibido) para torcedores e para a mídia.

 

3) O que acha do diálogo entre as suas fotos e as outras artes, ou mídias, presentes na exposição?

Eu conhecia a obra de Felipe e pouco do trabalho de Spetto. Mas foi uma ideia criativa apresentada pela curadoria da exposição.  Fizemos um único encontro com um diálogo energético/estético intenso.  De minha parte, senti que não haveria três exposições, mas a arte de um causando estranhamentos e interagindo com as obras dos outros. Esse diálogo entre os três trabalhos, para mim, reflexiona a realidade que está longe dos mega-espetáculos futebolísticos e traduz a visão de cada um de nós sobre um esporte presente no imaginário de todas as classes sociais.

Momentos como esses (da reunião de 3 artes visuais) são raros e quando acontecem, temos que aproveitar e dividir com o público.

 

 

 

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