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No balanço da bola *

Luiz Zanin Oricchio

25 de dezembro de 2012 | 13h06

Amigos, no fim de ano, com exceção de alguns campeonatos estrangeiros, a bola para. E, quando a bola para, sobra tempo para pensarmos o futebol de maneira mais geral. Livres das preocupações do dia a dia, das paixões clubísticas, dos destinos da seleção, pensamos em abstrato. Isto é, pensamos melhor.

Por isso, outro dia chamaram minha atenção as palavras de Tostão, ainda refletindo sobre a vitória do Corinthians no Mundial de Clubes. Disse que havia três maneiras de jogar hoje em dia. A do Barcelona, que é um caso único. A dos demais europeus, na qual o Corinthians, em parte, se integraria (e isso explicaria porque venceu o Chelsea). E a dos sul-americanos, nosotros, de tática antiquada e precária técnica.

Bem, estranhei a ausência de menção a qualquer escola brasileira que fosse. Acabou-se, a tal “escola brasileira”? Esse era um ponto que queria discutir com vocês. Não temos mais um jeito brasileiro de jogar? Ele não conta mais na ordem das coisas? Já existiu, ou foi ilusão nossa? Dilui-se na geleia do mundo global? Foi miragem feliz que se desfaz em contato com a realidade? Existiu um dia e, como tudo que existe sobre a Terra, acabou por morrer? Quando o grande cineasta e ensaísta Pier Paolo Pasolini falava em “futebol de poesia”, referindo-se justamente à seleção de 1970, elogiava algo que não existia? O historiador Eric Hobsbawm, referindo-se à mesma seleção de 1970 disse que, depois de vê-la jogar, ninguém podia negar ao futebol a condição de grande arte. Estaria falando bobagem? Exagerando? Ou evocando um passado que não volta mais? Dúvidas…

No presente, o Barcelona pratica seu estilo único, que encanta a maioria. Posse de bola, marcação à frente, troca de passes, paciência para abrir espaços e esperar o melhor momento de fazer o gol. Parece, hoje, virtualmente insuperável. Embora perca de vez em quando, como todo time de futebol. Depois vêm os outros times, que alternam a forma de marcação, mas também defendem e atacam trocando passes e sem rifar a bola. E, por fim, o estilo tosco latino-americano, brasileiro em particular, feito de chutões, levantamentos de bola sobre a área, marcação lá atrás. Uma tristeza!

Por coincidência (ou não), li há pouco o excelente livro O Barça – Todos os Segredos do Melhor Time do Mundo (Editora Qualitymark), escrito pelo jornalista italiano Sandro Modeo. O cabra é muito bom. Já havia lido dele um livro sobre o técnico José Mourinho. Modeo sabe do que fala. E usa vários recursos intelectuais e artísticos para entender – e explicar – o fenômeno do futebol. Até física quântica. De acordo com ele, o futebol de ponta praticado no mundo oscila entre o modelo holístico do Barcelona e o flexível proposto por Mourinho. Nada mais. Excluída dessas alternativas, estaria a “galáxia sul-americana”, cujo DNA seria avesso ao “futebol total” adotado no mundo civilizado. Seria o Corinthians de Tite a primeira exceção? Assunto vasto: voltaremos a ele.

Um ótimo Natal a todos.

* Coluna publicada no Caderno de Esportes do Estadão

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