Neville, popular e de vanguarda
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Neville, popular e de vanguarda

Luiz Zanin Oricchio

17 de maio de 2012 | 10h57

 

Neville D’Almeida, que ganha retrospectiva no Sesc Santo Amaro (de hoje a 8 de julho), é uma curiosa persona, mista de artista experimental e cineasta de grande público. Mineiro de BH e radicado no Rio de Janeiro, Neville fez filmes radicais e “malditos” no início dos anos 70, foi amigo e parceiro de Jorge Mautner e Hélio Oiticica e, como tal, detém carteirinha de sócio remido no restrito clube da contracultura brasileira.

Por outro lado, é responsável por grandes sucessos na época áurea da Embrafilme, como A Dama do Lotação (1978) e Os Sete Gatinhos (1980), duas adaptações de Nelson Rodrigues. Segundo dados da própria Embrafilme, Dama fez 6,5 milhões de espectadores, até hoje a terceira maior bilheterias de um filme nacional, superado apenas por Tropa de Elite 2 e Dona Flor e Seus Dois Maridos.

Como o próprio nome diz, a retrospectiva Neville D’Almeida não se limita à atividade do artista nas telas, pelo menos não apenas as do cinema. Procura também revelar seu insuspeitado lado multimídia através de uma série de atividades paralelas. Por exemplo, com a exposição Kayapoemas, trazendo intervenções de urucum e jenipapo sobre fotos dos índios Kayapos, do Sul do Pará. A série é inspirada nas Cosmococas, parceria entre Neville e Hélio Oiticica na Nova York dos anos 1970. Nesta, ícones pop como Marilyn Monroe, Yoko Ono e Jimi Hendrix eram desenhados com, adivinhe só, cocaína. Com os anos, mudaram a mentalidade, personagens e materiais usados nas intervenções.

Há também outras atividades, como workshops, peças de teatro, palestras, happenings. Entre as oficinas, uma, sobre o Cinema Marginal, será ministrada pelo crítico Christian Petermann. Outra, pelo bamba do desenho de cartazes de cinema Fernando Pimenta, autor dos pôsteres de filmes como Os Sete Gatinhos, Bye, Bye Brasil (Cacá Diegues) e Eu Sei Que Vou te Amar (Arnaldo Jabor). Haverá música também, com Jorge Mautner e Nelson Jacobina tocando temas de Jardim de Guerra (1970) e André Abujamra de A Dama do Lotação.

A pluralidade de eventos reflete a diversidade de interesses do artista, cuja face mais pública de cineasta faz algum tempo não vem à cena. Daí o interesse em rever seus filmes. Além dos já citados, alguns que fizeram furor à sua época, como Rio Babilônia (1982), com sua violência urbana e a cena de sexo explícito na piscina. Ou Matou a Família e Foi ao Cinema (1991), releitura da obra-prima de Julio Bressane. Neville, que sempre gostou dos marginais, também adaptou para o cinema Navalha na Carne (1997), a peça de Plínio Marcos, dramaturgo santista da ralé portuária. No papel da prostituta Neusa Suely, a bela Vera Fischer, e, no do seu gigolô, o cubano Jorge Perugorría (de Morango e Chocolate).

E daí, talvez, o interesse maior dessa retrospectiva de muitas faces – a apresentação do inédito Mangue Bangue (1971), filme experimental que se tornou mito em certo meio brasileiro por nunca haver sido exibido comercialmente por aqui. Obra finalizada por Neville em Londres, onde vivia exilado, Mangue Bangue era dado como perdido. Foi encontrada uma cópia, no MoMA, em Nova York, que a emprestou para ser exibida pela primeira vez no Brasil.

(Caderno 2)

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