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Neruda em Fuga

Luiz Zanin Oricchio

08 Julho 2015 | 19h08

 

Neruda, o Fugitivo, de Miguel Basoalto, já diz, em seu título, que trabalha com uma limitação autoimposta. Ao invés de tentar uma biografia abrangente de Pablo Neruda (1904-1973), tenta esboçar seu perfil através de um único episódio, delimitado no tempo e no espaço. Trata-se da fuga de Neruda, perseguido pelo presidente Gabriel González Videla, que colocou no Partido Comunista na ilegalidade e mandou prender seus militantes. Entre eles, Neruda, que se elegera senador pelo PC em 1946. O ano da história contada é 1948 e o que vemos é o poeta empreendendo sua retirada pelo interior do país para escapar aos sicários de Videla.

A fuga é organizada pelo Partido Comunista. A princípio, Neruda (vivido por José Secall) tenta sair do país por mar, disfarçado de inofensivo burguês em viagem. Mas quando esta via não dá certo, vê-se obrigado a apelar a um plano B muito mais complicado – atravessar a Cordilheira dos Andes, num trajeto difícil que precisa ser feito a pé por trilhas ou em lombo de mula.

Essa alternativa complicou demais a vida do Neruda real, mas proporcionou ao filme seus melhores momentos dramatúrgicos. Primeiro porque transformou o filme em thriller prolongado, com passagens de emoção quando os perseguidores se aproximam da sua presa. Não são muitos esses momentos, é bom que se diga. Mas neles há suspense.

O melhor, no entanto, é que, entrando pelo interior do país, Neruda retoma contato com o Chile profundo, bem diferente da capital, Santiago. É o Chile das montanhas, da neve, dos homens e mulheres simples, temperados pelo clima adverso e a dificuldade da vida sem recursos. Enfim, são essas as pessoas que levaram o jovem Neruda a uma opção política voltada para os desfavorecidos. Manteve-se fiel a essa opção por toda a vida. Anos mais tarde, apoiaria Salvador Allende e seu governo da Frente Popular. Morreria apenas 12 dias depois do golpe militar que depôs Allende e deu início à ditadura Pinochet, uma das mais sangrentas do continente.

Neruda, o Fugitivo trabalha com um registro fotográfico interessante, em tons escuros, que conduz o espectador à atmosfera da época. Possui momentos intensos, como os de Neruda à volta da fogueira onde trabalhadores do campo se reúnem para contar histórias e espantar o frio. Esse Chile rural, agreste e belo, marca presença na história de Neruda, àquela altura poeta consagrado, além de político. Tinha já publicado a obra que, para alguns críticos, seria seu ápice literário – Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada (1924).

É pena que Basoalto tenha escolhido tom um tanto solene para contar esse fragmento da história do poeta. Não por acaso, começa com a cerimônia da entrega do Prêmio Nobel em 1971, e com o discurso de Neruda na Academia Sueca, relembrando essa passagem de sua biografia. Esse flashback é interessante, mas o tom grandiloquente tira um tanto de coloquialidade que faria o filme respirar, e tornaria o poeta mais humano e próximo de nós.

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