Narrativas e o golpe semântico
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Narrativas e o golpe semântico

Há palavras que entram e saem de moda. A atual é "narrativa", sempre com o sentido de "narrativa do golpe" e aplicada a petistas e simpatizantes. Mas não fazemos todos narrativas em nossas vidas?

Luiz Zanin Oricchio

31 de maio de 2016 | 12h53

escriba

 

Há palavras e expressões que entram e saem de moda. Outras chegam para ficar.

Por exemplo, há algum tempo consagrou-se entre nós a expressão  “zona de conforto”, sempre usada em sentido negativo. Qualquer insatisfação com uma obra, um funcionário, qualquer um que pareça acomodado traduz-se no inevitável comentário: “está na zona de conforto”. Woody Allen trabalha na zona de conforto porque faz filmes à maneira de Woody Allen. Scorsese idem. O funcionário que goza de estabilidade vive na zona de conforto. O maridão que vê o jogo no sofá domingo à tarde está na…zona de conforto, claro.

Depois foi a execrável “empoderamento”, termo chupado direto do inglês, palavra horrível que traduz reivindicações justas. Justíssimas aliás. Tanto assim que deveriam arrumar outro termo para expressá-las.  

Agora a palavra da moda é “narrativa”. Quem a usa, quase inevitavelmente o faz no sentido de “narrativa do golpe”. Para dizer que é coisa de petista. De desocupados. Maus brasileiros. Coisa de gente, enfim, sem qualquer qualificação. Inimigos do país.

Quer “dizer” mais ou menos o seguinte: a narrativa dos outros se afasta da realidade. É uma espécie de mentira. Por que então não usar a palavra “versão”? Assim: na versão petista houve um golpe. Ou: os petistas mentem dizem que há golpe. Se não são os petistas são os “simpatizantes”. Os aparelhados. Gente medíocre como Chico Buarque, Raduan Nassar, Roberto Schwarz, etc.

Narrativa soa mais nobre. Mais técnico. Quem sabe mais grave e malévolo.

É pena, porque se trata de uma bela palavra que, como outras, está sendo jogada no lixo pelas colunas políticas.

A História (com agá maiúsculo), por exemplo, é uma narrativa. Desde Homero. Pretende ser a mais próxima possível dos fatos, ou melhor, do sentido profundo dos fatos. Pouco importa se, como Nietzsche, entendamos que a verdade mora no fundo de um poço. E que, desse fundo, só tenhamos interpretações. Cabe então propor a interpretação mais verossímil. Jornais, vale lembrar, fazem suas narrativas. Um recorte da realidade, com fatos selecionados e interpretados. 

Lembremos que a cultura ocidental contemporânea, tal como a conhecemos, foi fundada por três grandes interpretadores, entre os séculos 19 e 20: Marx, o próprio Nietzsche e Freud. Os três têm em comum o projeto de não se deixarem impressionar pelas aparências e tentarem encontrar o sentido profundo das coisas através de ousado, trabalhoso e radical processo de interpretação. Dessa forma, constroem suas “narrativas”.  

Não é termo para ser usado de maneira leviana – e nem entrei no terreno da narrativa literária.

De qualquer forma, a maneira como está sendo usada a palavra narrativa, como se fosse uma impostura dos outros, não passa de um golpe semântico.