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Nárnia

Luiz Zanin Oricchio

30 de maio de 2008 | 19h41

O segundo episódio de As Crônicas de Nárnia – Príncipe Caspian pertence à mesma família de O Senhor dos Anéis e Harry Potter. Superproduções destinadas ao público infanto-juvenil, que mergulham no universo do mágico e do maravilhoso à custa de toneladas de efeitos especiais. Têm platéia certa. No caso de Nárnia, como nos outros, os filmes são baseados em livros de prestígio – aqui se trata da série de sete romances escritos pelo irlandês C.S. Lewis.

Basicamente, as histórias se referem a mitos fundamentais: a luta entre o bem e o mal, que inclui não apenas seres humanos e suas instituições (reinados e principados), mas também animais que falam e seres fabulosos. No filme dirigido por Andrew Adamson, estabelece-se o contato entre esse mundo antigo e mágico e o mundo moderno e desencantado através de uma passagem numa estação de metrô, uma fenda no tempo, pela qual a família Pavensie abandona temporariamente sua condição urbana e ingressa naquele universo no qual texugos e ratos confabulam – e até com certa sabedoria. A missão dos quatro irmãos será ajudar o verdadeiro herdeiro do trono a se livrar de um usurpador, o rei Miraz, interpretado pelo grande ator italiano Sergio Castellitto.

Se o mundo colorido dos blockbusters é capaz de arregimentar atores consagrados como Castellitto, também não se furta à sua vocação última para rostinhos bonitos e insossos como o de Ben Barnes, que faz o Príncipe Caspian do título. São eles afinal que funcionam como chamariz para o público adolescente e não Castellitto. Mas a verdade é que mesmo o leão virtual Aslan parece mais expressivo do que Barnes, o que não representa problema para esse tipo de espetáculo.

Há um dado fundamental – em toda obra (literária ou cinematográfica) que adentra o universo mágico trabalha-se com uma aceitação incondicional das regras do jogo. Uma abolição provisória do senso crítico, que permite a verossimilhança de tramas improváveis, seres fantásticos e animais dotados do dom da razão e da fala. Até aí tudo bem, porque se trata de um gênero estabelecido e – por sorte – a humanidade não trabalha necessariamente o tempo todo no registro do real, ou do realismo. Podemos perfeitamente fugir para mundos criados pela imaginação e neles existir, pelo menos enquanto dura a sessão, ou o livro.

A questão com Príncipe Caspian é de ordem cinematográfica mesmo. Como acontece com freqüência com seus congêneres, este aqui também oculta seus problemas por detrás de uma grossa camada de efeitos especiais. Em vez de sugerir o elemento mágico, que se supõe existir sob toda aparência de realidade, ele é explicitado com o recurso fácil da digitalização, o que acaba por banalizá-lo. Da mesma forma, as batalhas são estendidas a uma duração insuportável para que o filme tenha metragem compatível com a que se espera das sagas – e esta aqui se arrasta na tela por nada menos que 144 minutos.

Qual o motivo de tanta duração? Necessidade interior da história? Parece muito mais o desejo dos produtores de entregar a mercadoria segundo as aspirações do destinatário. O cliente tem sempre razão, e essa máxima milenar do comércio parece presidir cada vez mais as opções do mercado de blockbusters.

O que não significa que não haja diversão, aqui e ali. Se fica difícil atravessar o campo minado das batalhas, sempre sobra algum senso de humor, como nas falas do rato espadachim. E há o castelo a ser assaltado, peça digital em tons góticos que funciona muito bem. Com esses elementos visuais e de humor, a diversão torna-se razoável. Seria melhor com um pouco mais de ritmo e concisão. E muito melhor com um pouco de inspiração.

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