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Não por Acaso, Rodrigo Santoro e a histeria no Recife

Luiz Zanin Oricchio

28 de abril de 2007 | 11h53

Foi a noite mais histérica do festival, em razão da presença de Rodrigo Santoro, que veio na equipe do longa-metragem Não Por Acaso, de Phillipe Barcinski. Freqüento este festival deste a primeira edição e nunca tinha visto tanta tietagem. Certo, Central do Brasil recebeu uma ovação inesquecível, com 10 minutos ininterruptos de aplausos. O caso de ontem era diferente, hormonal, adolescente, explicável apenas por essa doença chamada de culto à celebridade. Que atrapalha à beça alguns festivais de cinema. Tanto que houve dificuldade para passar da apresentação da equipe à exibição do filme. A apresentadora do festival teve de implorar por calma e depois ameaçar a turba para que houvesse mínimas condições de começar a projeção.

Que enfim começou. Um bonito filme, este Não Por Acaso. Segundo disse seu diretor, ele trabalha com o conflito entre a razão e a emoção, numa obra de camadas, que pode ser lida como duas histórias humanas que acontecem simultaneamente, ou como uma reflexão filosófica sobre os papéis do acaso e da necessidade no destino humano. Leonardo Medeiros faz o engenheiro de tráfego que, debruçado em seu computador, tenta colocar um pouco de ordem na caótica circulação de veículos em São Paulo. Rodrigo Santoro interpreta o construtor de mesas de sinuca e jogador, que planeja “na prancheta” cada uma de suas jogadas nesse esporte que consagrou Carne Frita e Rui Chapéu. Ambos têm relacionamentos difíceis. Medeiros com uma filha afastada de sua vida por conta da separação e relacionamento difícil mantido com a ex-mulher. Santoro, com uma namorada que se vai num acidente e depois tenta se aproximar de outra moça, bastante diferente dele.

Gosto de pensar que esse primeiro longa de Barcinski aproxima universos em geral muito distantes. Ao refletir sobre o antigo tema filosófico do acaso e da necessidade, ele dialoga com um engenheiro de trânsito que usa modelos matemáticos e com um jogador de sinuca, que bola as seqüências de jogadas em uma cadernetinha de bolso. O mundo técnico mistura-se com o universo popular da sinuca, ambos sujeitos às mesmas contingências. Faz entrar em cena também uma operadora de bolsa de futuros (Letícia Sabatella), ou seja, alguém que mexe também com um universo probabilístico. Tanto o engenheiro como o jogador de sinuca e a operadora de bolsa procuram imaginar um “ponto futuro”, a partir do qual possam intervir no presente. O fluxo de trânsito num determinado dia e região; a posição da bola branca depois de completada a jogada; a oscilação de preços de uma determinada mercadoria. São todos eles operadores de futuro. Todos somos, em certa medida. E não nos damos conta de que na rede de causalidade que traça nossos dias, o acaso entra sem pedir licença, intervém e passa a determinar o que será o futuro. O planejamento é uma necessidade, mas em certa medida está sempre voltado para o fracasso.

Com tal tema “intelectual”, era previsível que Barcinski tentasse aproximar o filme do espectador médio, mais arredio a raciocínios em salas de cinema. Afinal, trata-se de um produto a ser lançado por uma major, a Fox, co-produzido pela O2 e pela Globo Filmes. Essa gente não rasga dinheiro. E assim, as linhas mais reflexivas esmaecem um pouco ao longo do tempo, a música entr para “esquentar” uma trama que alguns poderiam julgar fria, e um certo apaziguamento final amorteçe os pontos mais inquietantes do projeto. Tudo somado e deduzido, fica-se com um belo filme. Inclusive porque poucas vezes a cidade de São Paulo foi filmada de maneira tão intensa quanto neste longa, fotografado por Pedro Farkas.