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Não Minha Filha, Você não Irá Dançar

Luiz Zanin Oricchio

18 de janeiro de 2010 | 20h47

Além do show de interpretação de Chiara Mastroianni, há bons motivos para se gostar desse filme de título longo e improvável – Não, Minha Filha, Você Não Irá Dançar.Uma delas, sem dúvida, é a maneira como Christophe Honoré consegue manter o clima de suspense aceso ao longo de toda a história. Suspense – essa palavra. O que quer dizer, no fundo? Entre outras coisas, que o espectador sente-se preso à trama, “suspenso” a ela, sem conseguir tirar os olhos da tela (ou do livro) até que o desfecho se apresente.

Acontece que, no caso, o “desfecho” em nada se assemelha à solução de um enigma, de um crime, ou alguém perseguido por um assassino em série que não sabemos se irá se salvar, ou qualquer coisa desse tipo. Trata-se muito mais de um thriller psicológico, que fala de alguém que parece empenhado o tempo todo em torpedear qualquer saída viável para sua vida. E o suspense assim se cria em torno de uma pergunta: será que Lena conseguirá enfim ser feliz? Lena é a personagem de Chiara, bela atriz (nos dois sentidos), filha de Catherine Deneuve e Marcello Mastroianni.

Sua personagem é uma mulher separada, que agora cuida sozinha dos dois filhos e não tem emprego. Claro que a família lhe dará todo o apoio para que ela possa se adaptar à situação, etc. Mas a sua história pessoal sugere uma inadaptação fundamental em relação à vida e isso não parece coisa de fácil solução. E fica claro que Lena não é proprietária única, e talvez nem sócia majoritária de todo o desacerto da sua existência. Basta olhar para o resto da família e ver que, sob o aparente desejo de colaborar, existe muito de crueldade, intriga, fragilidades e mesmo de sabotagem. Lena tem de enfrentar seus filhos, sua mãe carola (Marie-Christine Barrault), seu pai um tanto ausente e com medo da morte (Fred Ulysse) e uma irmã cheia de ironias (Marina Foïs). Há também o ex-marido americano, que some e reaparece (Jean-Marc Barr) de uma hora para outra.

Ninguém é inocente, parece sugerir Honoré. E todas as neuroses familiares se acomodam melhor quando se encontra alguém que as suporte sobre os ombros e passa a ser considerado o único neurótico num conjunto de seres “muito sadios”. Apenas ela é quem destoa no ecossistema familiar. É nesse processo que a família consegue aparentar harmonia, jogando toda a dissonância para um dos seus membros. Tudo isso é bem conhecido de psicólogos e psicanalistas. É até mesmo um lugar-comum do mundo psi.

Há, além disso, um achado que faz de Minha Filha… algo diferente. Anton, um dos filhos de Lena, gosta de ler e um dia evoca a lenda bretã que justifica o título do filme. É a história de Katell Gollet, a moça que só queria dançar, mesmo que fosse com o Diabo. Honoré faz desse conto uma sequência musical, sem diálogos, que ilustra o que fundamenta toda a história: o preço (alto) a pagar pela liberdade.

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