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Na tela, o universo estranho de Valêncio Xavier

Luiz Zanin Oricchio

30 de abril de 2009 | 11h50

RECIFE – O primeiro filme na competição de longas do 13º Cine PE, Mistéryos, vem do Paraná. Dirigido por Pedro Merege e Beto Carminatti, baseia-se no livro de Valêncio Xavier, morto em 2008, autor de uma literatura insólita, pessoal. É dele O Mez da Grippe, livro do qual Mistéryos tira uma leitura cinematográfica. O filme é narrado e interpretado por Carlos Vereza (de Memórias do Cárcere) e tem a atriz Sthefany Brito (senhora Alexandre Pato) vivendo vários papéis.

Entre as personagens interpretadas por Sthefany estão a da garota que some no interior de um trem fantasma e a de uma atriz pornô dos anos 20. A propósito, Xavier era um rato de Cinemateca e fuçou em cópias de filmes pornôs rodados nas primeiras décadas do século passado. São bons momentos, tanto o caso policial sobre a garota desaparecida, quanto a evocação de Safo dos pornôs ancestrais. Mas qual a organicidade do filme? Essa, a questão.

Mistéryos começa bem, criando a ambientação soturna, em que narração, fotografia baseada em luz e sombra, posicionamento de câmera, etc., compõem o cenário gótico desejado. Tem clima. Mas esse clima vai se perdendo ao longo do desenvolvimento da(s) história(s). E chega a passagens em que simplesmente se desfaz. Então, o estranhamento passa a ser só estranho – e no mau sentido do termo, nunca no daquele “Umheimlich” de que falava Freud, o do “estranho familiar”, portanto mais inquietante ainda. Mas é um filme que tem qualidades.

A mostra de curtas, seja no suporte digital, seja no tradicional 35 mm, vem apresentando bom nível. Distração de Ivan (RJ), de Cavi Borges e Gustavo Melo, traz o cotidiano de um garoto em Brás de Pina, subúrbio do Rio, bastante comum e, ao mesmo tempo, surpreendente. Detectar o que existe de fragmentário sob a realidade banal é o que há de mais estimulante neste filme. Já Muro (PE), de Tião, aposta logo de saída numa linguagem bastante incomum, para evocar um sertão transfigurado, talvez em diálogo (consciente ou não) com as figuras fílmicas de Sergei Paradjanov, o grande cineasta armênio. Muro, que participou do Festival de Cannes de 2008, é sério candidato a prêmios, com sua beleza paradoxal e ar de mistério com que envolve uma situação de violência.

Esses dois filmes são mais elaborados e foram colocados no mesmo dia, talvez por questão conceitual: dedicar a sessão aos “filmes-cabeça”. Já no dia anterior, a seleção de curtas privilegiou obras mais narrativas, algumas bem interessantes. Caso de Ana Beatriz (DF), de Clarissa Cardoso, inovadora na descrição de um caso amoroso: a narração off fala do rapaz enquanto a tela mostra a moça em seu cotidiano. Blackout (RJ), de Daniel Rezende, montador de Cidade de Deus, traz uma situação insólita. Dois assessores parlamentares fazem uma pausa para fumar um baseado quando há uma queda de energia. Diálogos hilários, às vezes absurdos, e um ritmo à Tarantino, em falso plano único. Bem criativo

(Caderno 2, 30/4/09)

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