Na Presença de um Palhaço
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Na Presença de um Palhaço

Luiz Zanin Oricchio

28 de abril de 2015 | 10h25

palhaço

 

“Oficialmente”, Ingmar Bergman parou de filmar com Fanny & Alexander (1982), tocante e genial evocação de sua infância. No entanto, continuou seu trabalho, até praticamente o fim, em 2007, tanto no teatro como em obras destinadas à TV sueca. Na Presença de um Palhaço (1997) é uma delas, lançada agora pela Versátil. O DVD vem acompanhado de um extra de luxo, um longo making of (quase uma hora), que nos dá oportunidade de ver o mestre em ação, dirigindo seus atores.

Na Presença de um Palhaço começa em 1925 num hospital psiquiátrico, onde está internado Carl Akerblom, acusado de haver espancado a noiva, Pauline (Marie Richardson). Na instituição, ele faz amizade com Osvald Vogler (Erland Josephson) e ambos decidem colocar em pé um projeto tido por delirante – fazer o primeiro filme sonoro da história. A data é importante. Em 1925, o cinema era novo e mudo. O Cantor de Jazz, tido como primeiro filme com falas e canto sincronizados, viria a público em 1927.

O expediente da dupla Akerblom e Vogler é engenhoso. O filme rodado por eles é projetado numa tela, de maneira convencional. Atrás dela, atores e atrizes dizem as falas dos seus personagens e tocam piano quando a cena exige. A história imaginada remete ao final da vida do compositor Franz Schubert, apaixonado por uma prostituta e descobrindo-se portador de sífilis.

Obviamente, a morte espreita essa meditação sobre a vida, o amor e a arte. Ela toma o formato de um misterioso palhaço branco, que aparece em determinadas ocasiões. No making of, Bergman explica que, na infância, os palhaços de circo o aterrorizavam. Sonhava com esse palhaço branco que, para ele, significava a morte de maneira bem concreta.

Mas o filme é, basicamente, uma reflexão afetiva em torno do cinema e do teatro, as duas artes exercidas por Bergman. O teatro foi sua primeira e última paixão. Na verdade, acompanhou-o ao longo da vida. Com o cinema,  começou como roteirista até estrear em 1945, com Crise. Com o cinema, conheceu o ápice do seu reconhecimento internacional, pois arte da reprodutibilidade técnica, é ele que viaja e não o teatro. Ao morrer em 2007, Bergman foi, com justiça, saudado como um dos grandes criadores do século. Como falar dos anos 1900 sem lembrar obras como Morangos Silvestres, O Sétimo Selo, Persona, Gritos e Sussurros, Cenas de um Casamento e tantos outros?

No entanto, sentia-se em casa no universo do teatro. Já no final de Fanny & Alexander declara seu amor a esse mundo acolhedor, quase uterino, ao qual iria voltar e se recolher, depois de achar que não tinha mais condições físicas para dirigir um filme. É do diálogo entre essa arte nova do século 20 (formalizada, pelos irmãos Lumière, em 1895) e a ancestral arte da representação que Bergman tira sua força única. Por isso, não surpreende o espectador atento o desenvolvimento de Na Presença de um Palhaço, quando constata se que, na falência da técnica, a velha arte da representação pode ser exercida, com toda sua plenitude, mesmo em suas formas mais simples.

Se em sua lucidez, Bergman não via qualquer saída para o destino trágico do homem, era sempre pela arte que  encontrava, se não uma reconciliação, pelo menos uma fresta de esperança. Pequeno clarão, a iluminar a farsa trágica de Na Presença de um Palhaço.

 

Nos bastidores

 

A primeira coisa que surpreende o espectador no making of é a presença de um Bergman muito ágil no set. Com 80 anos na época, nada tem de um ancião. Locomove-se com rapidez e chega a dar uma corrida para mostrar ao elenco como desejava que certa cena fosse feita.

Mais do que demonstrações de agilidade física, o que se vê nesse bastidor de filmagem é um diretor em plena posse de sua velocidade mental, detalhista, exigente e, o que talvez seja digno de nota, dada a densidade dos seus dramas, dotado de grande senso de humor. Bergman, nota-se, está em casa, com sua grande família de atores e atrizes. Move-se em seu mundo. Trata bem a todos, mas mantém suas idiossincrasias. Por isso, a uma atriz novata, que pela primeira vez trabalha sob suas ordens, avisa: “Eu sei que estou gritando. Os outros já estão acostumados com isso, mas para você preciso avisar. Não consigo evitar”, diz. Aos gritos.

Explica a presença do palhaço-morte como resultado de uma de suas (inúmeras) fobias de infância. E diverte-se muito nas cenas mais perigosas – entre elas um incêndio em pleno teatro, com um dos atores com as vestes em chamas.

Anedotas à parte, esse bastidor de filmagem é rara oportunidade para ver um grande mestre em ação. A maneira como acompanha seus atores, como sugere da entonação das falas até o franzir exato de sobrancelhas. A busca da emoção exige muita técnica.

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