Na parceria ele era a pólvora e Luiz Gonzaga, o canhão
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Na parceria ele era a pólvora e Luiz Gonzaga, o canhão

Luiz Zanin Oricchio

14 de janeiro de 2010 | 15h45

nuvens

À sua maneira, O Homem Que Engarrafava Nuvens é muitos filmes em um só. (Re)apresenta ao público um personagem importante mas que estava relegado à sombra. Promove o reencontro emocional entre uma filha e a memória do pai. Traça um panorama amplo de uma fase de ouro da música popular brasileira. E discute, conceitualmente, os dois grandes eixos em torno do qual essa música se articula – o samba e o baião.

Para cozinhar essa receita de múltiplos ingredientes, entrou o talento do diretor Lírio Ferreira (de Baile Perfumado e Cartola). Impulsionando o projeto, e nele presente com seus depoimentos, a filha do personagem principal, a atriz Denise Dummont, hoje casada com um americano e residente nos EUA. É nesse país que a vemos num dos trechos mais tocantes do documentário, conversando com a mãe, a pianista Margot Bittencourt (que morreu após a filmagem) em seu apartamento. Margot teve a filha, Denise, do seu casamento com o compositor Humberto Teixeira. Depois de uma união conflitada, deixou-a no Rio com o pai e foi morar nos EUA com o locutor Luiz Jatobá. É Margot quem conta que Teixeira era um homem encantador mas um machão nordestino à moda antiga, dominador e intolerante. A própria Denise sentiu na pele o autoritarismo da figura paterna quando resolveu ser atriz, profissão que não era para moças de boa família, na visão do pai.

Essa passagem é importante para mostrar que o filme não se pretende uma hagiografia, santificação póstuma do personagem. Pelo contrário: Teixeira é apresentado em seus matizes, contradições, altos e baixos. O que o torna humano, e essa perspectiva só faz ainda maiores seus pontos fortes. Durante muito tempo, e isso para quem conhecia o seu nome, Teixeira era visto apenas como o “letrista” de Luiz Gonzaga em seus inúmeros sucessos, o maior deles, talvez, Asa Branca, um clássico conhecido no mundo todo. No entanto, o que se vê é que Teixeira, além de intelectual, era um musicista, que participava ativamente também da parte musical da composição. Teve o azar, ou a sorte, de se juntar a personagem tão marcante como Gonzaga, que acabava ofuscando todos os outros. O filme devolve a Teixeira o lugar que lhe pertence.

lirio
O diretor Lirio Ferreira e Denise Dummont, a filha de Humberto Teixeira

Por sorte, essas ideias são discutidas na forma de depoimentos, da própria música e de sua junção com a imagem. Por exemplo, a parceria da dupla vê-se definida da seguinte maneira: Humberto Teixeira era a pólvora e Luiz Gonzaga, o canhão; quando os dois se juntavam… o que se vê na tela é uma explosão atômica. Lírio consegue unir imagens documentais, música, palavra e imagens de arquivo para construir um discurso que não é apenas conceitual, mas plenamente cinematográfico.

Lírio teve também uma produtora (a própria Denise) que não economizou quando alguma imagem lhe parecia importante. Para mostrar a difusão mundial do baião, vê-se um trecho de Silvana Mangano no filme Anna, de Alberto Lattuada, cantando um “baión” estranho, mix do ritmo brasileiro com sotaques mexicanos e caribenhos. Mostra como a música de Teixeira e Gonzaga contribuiu para expandir as fronteiras da arte brasileira no exterior.

O que perdura vai passando por gerações e a argamassa que liga um tempo a outro se chama cultura. O Homem Que Engarrafava Nuvens faz a ponte entre o samba e o baião, e chega à síntese moderna de João Gilberto em uma de suas poucas composições: “É só isso meu baião/E não tem mais nada não/O meu coração pediu assim…”

(Caderno 2, 14/1/10)

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