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Na Natureza Selvagem

Luiz Zanin Oricchio

23 Fevereiro 2008 | 18h40

Existe alguma coisa que vai além do ‘filme de pé na estrada’ neste Na Natureza Selvagem, dirigido por Sean Penn. Certo, é baseado no livro Into the Wild, escrito por Jon Krakauer, lançado em 1998, e conta a história do rapaz que larga tudo e vai viver a sua aventura pelas quebradas do país. Até chegar ao Alasca, seu grande objetivo.

Objetivo? Bem, depois de escrever a palavra se descobre como ela é problemática quando aplicada ao protagonista, Christopher McCandless (Emile Hirsh, de Alpha Dog). O garoto é um daqueles personagens que têm tudo para ‘dar certo na vida’, exceto pelo fato, que pode ser desastroso, de realmente desejar algo mais, coisa de que nem ele próprio tem muita consciência. Para desespero dos pais (William Hurt e Jena Malone), Christopher se forma e, em vez de começar a construir a carreira, larga tudo e vai viajar.

E, novamente aqui, é preciso fazer outra observação. A viagem de Christopher em nada se parece com aquela necessidade adolescente de conhecer o mundo, novos lugares, culturas exóticas, outras pessoas, etc. Enfim, aquele ato de descoberta tão incentivado porque é considerado formador de caráter e mesmo de cultura. A viagem de Christopher será outra coisa.

Sean Penn, como diretor, parece compreender à perfeição o material que tem nas mãos a partir da leitura do livro. Sabe que precisará encenar uma viagem espiritual, metafísica mesmo, e que, para isso, terá de apostar nas dimensões do espaço e do tempo. Isso implica fazer o filme durar 140 minutos, cada um deles absolutamente necessário para que o clima, digamos, mental, de Christopher seja exposto para o espectador.

Não se trata apenas disso. Penn, como diretor, precisa dos grandes espaços – o que quer dizer, da tela grande em sua plenitude – para ‘dizer’ a alma de Christopher. Porque ele se relaciona tanto com outras pessoas como com a paisagem em si. E, progressivamente, será com o meio físico, com a natureza selvagem, que está no título, que esse relacionamento se dará de maneira mais plena.

Christopher busca as pessoas e encontrará várias delas em sua trajetória. Algumas muito interessantes, como a família meio hippie que quase o adota, a adolescente por quem tem uma queda, ou o velho sábio que enfim lhe dá o impulso final para seu grande passo. Mas, a partir daí, desses encontros influentes mas que nada têm de notáveis, Christopher se verá só para o que precisa fazer. E o filme terá de acompanhá-lo nessa solidão, o que implica resolver o problema da ausência de diálogos e fazer da natureza algo tão expressivo quanto o homem que nela adentra. É como se tudo o que tivesse acontecido antes fosse apenas o preparativo para Christopher enfrentar-se, só consigo mesmo, com perdão da redundância, diante de uma paisagem tão magnífica como hostil.

Existe algo aí como a despossessão de convenções sociais, como se o ‘herói’ fosse, a cada etapa se despindo de tudo que possa estorvá-lo na busca de algo mais profundo, e que ele ainda não compreende. A trajetória de Christopher é a de quem vai se livrando daquilo que havia adquirido até então, deseducando-se, por assim dizer, para estar pronto para o seu encontro. É alguém que tenta reduzir a sua vida à simplicidade material absoluta para alcançar a ascese. Há algo de religioso nisso, e os exemplos são muitos, podendo ser citado, por exemplo, o personagem Larry Darrell, de Somerset Maugham em O Fio da Navalha, que também já foi filmado e refilmado – em 1946 e 1984. Tyrone Power faz o protagonista no primeiro e Bill Murray no segundo.

Larry se desvencilhava da proteção dos bens materiais e ia em busca do espiritual. Rumo ao Oriente, ao Tibete, tido como meca da sabedoria. Sua depuração, como pessoa, passava por esse processo de negação de sua cultura, introdução na outra desconhecida e esotérica, para que pudesse, depois, retornar à sua própria civilização, mas então já dispondo de imunidade contra a alienação.

Há algo disso em Christopher, o ato simbólico de queimar seus navios, de tornar a viagem um processo sem volta, quando ateia fogo ao pouco dinheiro que tem no bolso. Em algum dos seus textos, Jorge Luis Borges diz que destruir dinheiro é uma impenitência, uma profanação. E diz isso não porque fosse particularmente apegado aos bens materiais, porque isso ele não era. É que existe qualquer coisa de misterioso no suporte material do valor. Ele representa não apenas a possibilidade de aquisição de um bem, às vezes necessário para a subsistência da vida, mas recolhe o trabalho acumulado e o transforma em equivalente universal. Não é preciso ter lido Marx para saber disso. Meu trabalho me deu como recompensa esse dinheiro e, com ele, posso trocar o meu esforço pelo esforço do meu semelhante.

Destruir o dinheiro, assim, equivale a destruir um elo com a humanidade. Viro as costas para o que me constitui como parte de uma civilização e suas convenções e vou ao encontro de algo que não sei bem o que é mas imagino seja algo mais puro, um absoluto, uma verdade.

Por isso, a viagem de Christopher em Na Natureza Selvagem é trajetória metafísica, de busca do ser, e não simplesmente uma aventura. Ao despojar-se de tudo, Christopher mergulha no abismo, na imensidão de si, representada pela natureza intocada. Christopher busca tudo. Ou o vazio, o que vem a dar na mesma.

(Caderno 2, 22/2/08)