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Na Estrada

Luiz Zanin Oricchio

13 de julho de 2012 | 10h42

Na estrada o homem está em seu elemento. Ela contempla duas realidades em aparência contraditórias. A do movimento e a do repouso, porque, sim, toda viagem supõe uma volta, pontos de repouso, pausas intermediárias. A viagem é também a metáfora da mudança – e isso esta na maior entre elas, a de Ulisses, na Odisséia. Mas é, também, a constatação de que tudo muda,inexoravelmente, mesmo aquilo que não gostaríamos que mudasse. Há, assim, sempre um tom de melancolia na viagem realizada. Ela nos joga na cara a nossa finitude.

 

Há de tudo isso um pouco na leitura que Walter Salles faz do clássico On the Road, de Jack Kerouac.  Por isso,talvez, seja inútil esperar um tom esfuziante na longa trip de Sal Paradise, Dean Moriarty e Marylou. Há, nessa versão, um tom mais pausado, talvez reflexivo, exatamente onde alguns esperavam mais exacerbação. Com certo sentido, pois a viagem da trinca, sob a qual se escondem os nomes dos personagens reais – o próprio Kerouac e seu amigo Neal Cassady –  é também uma viagem de geração. Pré hippie, de valorização da bebida, da droga e do sexo como vias de liberação da vida burguesa. Acontece que essa é uma condição dos anos 1950, revista 60 anos depois. A releitura leva a marca desse mais de meio século transposto.

 

Sexo, drogas, velocidade e…falta ainda um elemento? A música, que não é ainda o rock, mas o jazz, o bebop, com suas dissonâncias e arritmias, pontuando toda uma época. Estão todos lá, no filme de Salles, impecavelmente arranjados, da interpretação dos atores à fotografia, passando pela trilha sonora e pela concepção visual dos lagos espaços do país. Um belo filme, ao qual falta um grão de loucura para que a experiência de Kerouac em sua vida no abismo fosse também nossa.

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