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Na era do rádio

Luiz Zanin Oricchio

10 de novembro de 2009 | 19h29

LUIZ ZANIN, MANAUS

Abro aqui em Manaus os jornais de segunda-feira e o que vejo? Fotos do Flamengo, do Fluminense e do Vasco na primeira página. Enormes. É engraçado como os times cariocas são populares em determinadas regiões do País. No fim de semana, dando uma volta de carro, vi pelas ruas as mesmas bandeiras de times cariocas sendo vendidas nos semáforos. Pedi uma explicação ao motorista e sugeri que era a fraqueza dos times locais que faziam a população se interessar mais pelos clubes do Rio.

Ele me deu razão, mas só em parte. Teceu uma complicada teoria segundo a qual os torcedores, muito tempo atrás, seguiam os jogos pelo rádio. E a emissora que então dominava o Brasil era a Rádio Nacional, uma espécie de TV Globo da época. Ela levava informações e música aos mais distantes rincões (êpa!) deste País imenso. E exportava, também, a paixão pelos clubes da sede carioca. Esses torcedores foram sendo formados segundo a tradição manda, isto é, de pai para filho. E, por isso, as bandeiras do Mengo, entre todas, parecem dominantes nas esquinas de Manaus, uma das sedes da Copa do Mundo de 2014. A explicação faz sentido. Ainda mais, com a fraqueza dos times locais, São Raimundo e Rio Negro, que vegetam em divisões inferiores, fora dos holofotes. Para o manauara, a saída é mesmo manter a tradição dos pais e torcer por times cariocas. Enquanto isso, fazem a festa local nas várias modalidades do Peladão, o futebol amador que, com seus jogos em bairros e desfiles das musas de cada time, mobiliza cada vez mais a cidade.

E a coisa não para por aí. Começa agora a Copa Indígena de Futebol, que tem as seleções de Manaus e de São Paulo de Olivença, a 1.235 metros da capital, como jogo de abertura. Então, se a Amazônia não tem nenhum time profissional que comova a sua população, compensa essa ausência com um investimento afetivo maciço no futebol amador. Vale a mesma coisa. Talvez valha até mais, se você for pensar nos aspectos simbólicos do futebol e em tudo o que isso implica em termos de identidade cultural, cor local e administração de rivalidades através do jogo. Estão felizes com o que têm.

Além do mais, se o coração em termos de futebol profissional pende para os cariocas, os manauaras não têm do que se queixar, pois a rodada foi perfeita para os times do Rio. O Fluminense continua avassalador; se jogasse desde o começo como agora, estaria disputando o título e não fugindo do rebaixamento. O Vasco subiu. Há muito não via um Flamengo tão empolgante quanto esse de Adriano e Petkovic. O próprio Botafogo parece se distanciar do rebaixamento cada vez mais. Enfim, o futebol carioca, patinho feio nos últimos Brasileiros, está fazendo bonito nesta edição de 2009.

Embora, em termos de título, as coisas ainda estejam pendendo para São Paulo. Ou melhor, para o São Paulo, que, apesar do empate de meio de semana com o Grêmio, teve uma rodada muito positiva. Depende agora de si mesmo para levar o quarto título seguido, o que seria uma vergonha, e uma lição, para os outros clubes. O Palmeiras, claro, não está morto, assim como o Atlético, que perdeu para o Flamengo. Todos têm chances, o que é uma constatação óbvia, mas inevitável a esta altura do campeonato. Maravilhoso e pobre campeonato, tão forte em emoções, tão frágil em técnica.

(Coluna Boleiros, 10/11/09)

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