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Música em Havana

Luiz Zanin Oricchio

10 de dezembro de 2006 | 21h47

Vi aqui em Havana dois documentários interessantes sobre personagens da música latino-americana. Um sobre talvez aquele que seja o maior ídolo popular cubano, Benny Moré; outro, sobre a cantora Chavela Vargas, de origem costa-riquenha, mas desde pequena radicada no México. Espero que ambos cheguem ao Brasil pois são bem legais.

El Benny, do cubano Jorge Luis Sánchez, é um docudrama, utiliza atores para reviver a vida logo dissipada do compositor e cantor. O filme, presente no festival, na verdade já estreou em Cuba, sendo um dos maiores sucessos da ilha nos últimos anos (700 mil ingressos), o que se compreende pela popularidade do personagem. Mas é indício também pela qualidade do filme, que reconstitui com fidelidade a época de atuação de Benny, nascido em 1919 e morto em 1962, três anos portanto depois da revolução.

O filme porém não se preocupa com a reconstituição de eventos políticos, embora não os evite. Centra-se mais na música, e também no alcoolismo de Benny, que abreviou na garrafa de rum uma carreira brilhante. A música é deslumbrante e reconstituída de maneira eficaz no filme. Houve alguma controvérsia na maneira de Sánchez refazer a história de Benny. A família chegou a dizer que o retrato seria caricato, com ênfase na farra, no consumo desenfreado de álcool, de macho latino mulherengo e boêmio. O fato é que Benny viveu mesmo dessa forma, porém não é verdade que o filme se resuma a isso – o que fica dele é o talento rítmico impressionante do artista, o carisma, a maneira como se dirigia ao público e o encantava. O filme termina com cenas documentais do enterro do cantor em Havana, uma impressionante demonstração de amor do povo de Havana dos anos 60 por seu artista favorito.

Su Nombre Es Chavela é um documentário em formato clássico. O diretor José Eduardo González Ibarra realiza entrevistas, ouve a própria cantora e a mostra em ação sobre o palco. Sua dramaticidade em cena é impressionante, bem como a lucidez e a franqueza. Pedro Almodóvar diz que é a artista que, ao vivo, mais o emociona no mundo. “Choro ao ouvi-la”, diz Almodóvar. Não é o único. Os espetáculos de Chavela, em geral vestida com um ponche colorido, são verdadeiras catarses de massa. As pessoas choram, “se limpam por dentro”, como dizem vários de seus admiradores. Chavela pertence à estirpe dos trágicos, como Edith Piaf. Os grandes sofredores, e que transmitem esse sofrimento ao público e o purgam. Um dos grandes momentos é a interpretação de Chavela para uma música que conhecemos de perto – A Noite do Meu Bem, de Dolores Duran.

Assisti Su Nombre Es Chavela em companhia da diretora venezuelana Fina Torres (de Mecânica Celeste e Woman on Top, com Penélope Cruz). Fina me disse que havia gostado muito do documentário, mas que sentia falta de uma reconstituição mais completa da vida de Chavela, que daria uma novela, mesmo que não cantasse. Parece que ela chegou a ser condenada à prisão por um crime cometido por ciúmes. Uma vida intensa e contraditória, expressa no rosto da velhota ainda muito bonita em seus 80 e que afirma com os olhos brilhando: “As pessoas da minha idade costumam dizer que tomavam um copinho de bebida em seu tempo; eu não: eu enchia a cara mesmo.” Chavela Vargas é uma das cantoras favoritas de Caetano Veloso, que sabe das coisas em matéria do cancioneiro latino-americano e seus intérpretes.

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