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Mundo de Rosa

Luiz Zanin Oricchio

17 de novembro de 2007 | 12h00

Vamos convir – não é nada fácil adaptar Guimarães Rosa para o cinema. O trabalho do escritor mineiro com a palavra, sua relação próxima com a paisagem das Gerais, o fundo tanto psicológico quanto metafísico de histórias em aparência simples, tudo isso torna-se um desafio e tanto para roteiristas e cineastas. Por isso mesmo precisamos saudar a chegada de Mutum, de Sandra Kogut, inspirado em Miguilim, e que se mostra à altura do texto original.

Não foram poucas as adaptações de Rosa. Há Grande Sertão: Veredas, dos irmãos Santos Pereira, que um crítico definiu como “hípico”, ao invés de épico, tantas eram as cavalhadas que resumiam a trama de um dos mais complexos romances brasileiros. Nelson Pereira dos Santos reuniu contos em A Terceira Margem do Rio, Paulo Thiago dirigiu Sagarana – o Duelo, e o mesmo fez Pedro Bial em Outras Estórias.

Entre todas, a versão mais bem-sucedida é A Hora e Vez de Augusto Matraga, tirada também de um conto de Sagarana. O próprio Rosa aprovou a versão de Roberto Santos para o seu texto, que tem grande atuação de Leonardo Vilar e música de Geraldo Vandré. Com o sucesso, Roberto queria adaptar Manuelzão e Miguilim, mas Rosa já tinha morrido e o cineasta enfrentou problemas com os herdeiros. Grana. Não fez o filme e morreu frustrado com isso.

Também por esse motivo é muito legal assistir à chegada de Mutum, como se fosse a retomada de uma história interrompida. E o melhor é que Sandra Kogut compreendeu perfeitamente o que tinha em mãos. Essa história, “contada” por um menino com problemas de visão, abarca o universo tão rico quanto rarefeito do grande Rosa. Esse mundo nuançado tem pontos de clareza e pontos cegos.

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