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Mundo antigo

Luiz Zanin Oricchio

21 de março de 2008 | 12h25

Talvez não seja o melhor assunto para a Semana Santa, mas o que fazer se justo agora acabei de ler o Satyricon, de Petrônio, em nova tradução (de Claudio Aquati) e edição caprichada da Cosacnaify? Já o havia lido, na tradução bastante livre que o poeta Paulo Leminsky fez do latim vulgar de Petrônio.

Imagino que, nos anos 60, foi Federico Fellini quem tirou o “romance” de Petrônio do esquecimento com seu filme, que foi lançado em 1969. Li a respeito numa das inúmeras entrevistas que o diretor concedeu ao longo da vida, agora não me lembro a quem e, como estou fora de casa, não posso checar. Mas, enfim, Fellini dizia mais ou menos o seguinte: havia adoecido e ido parar no hospital. Na longa convalescença, para combater o tédio, lia os fragmentos da obra de Petrônio e tentava imaginar o que havia sido aquele mundo, do qual só restavam fragmentos, e que o tempo havia levado. O filme foi se fazendo em sua cabeça.

Quem se lembra dele, o filme, sabe que Fellini encontrou o final mais magnífico para colocar em imagens essa idéia do mundo “perdido”: os personagens, que acompanhamos ao longo de toda a história, aparecem num daqueles murais semi-destruídos que encontramos em Pompéia, por exemplo, mas um pouco em toda parte, na Itália, na Grécia, na França. Vestígios do que um dia foi o vasto Império Romano, suas gentes, seus hábitos. Lembro que a primeira vez que vi esse final no cinema fiquei olhando longamente para a tela (que já mostrava apenas os créditos), meio perdido, sem saber o que pensar, porque, provavelmente, algo do meu inconsciente acabara de ser tocado. “Kern unseres Wesens”, dizia Freud – o âmago do nosso ser.

Bem, e os “heróis” no mural? Quem são eles? Encólpio, seu amante Gitão, seu amigo e rival Ascilto. E mais um sem número de personagens, entre eles o novo-rico Trimalquião e o poeta bêbado Eumolpo, que deixa um misterioso testamento: seus herdeiros, para colocar a mão em sua fortuna, seriam obrigados a devorar-lhe o corpo.Tudo o que restou da trama de Satyricon (a maior parte desapareceu) mostra Encólpio, punido por Príapo, em busca de sua virilidade perdida. São as aventuras desses bandoleiros da antiguidade que vamos acompanhando pelas descrições de Petrônio.

Vamos lendo essas páginas, ou melhor, esses fragmentos, e a imaginação preenche as lacunas. Nos levam a um hipotético mundo pré-moral, obviamente decadente, que já evoca uma suposta era de esplendor, perdida para sempre. O texto foi escrito no século 1 da era Cristã.

A certa altura, Encólpio pergunta a Eumolpo quais seriam as causas da decadência daqueles dias. Resposta do poeta: “Foi a cobiça do dinheiro que provocou essas mudanças. Nos tempos antigos, quando a virtude pela virtude ainda agradava, vigoravam as artes liberais, e a maior emulação entre os homens era desvendar o que seria proveitoso para a posteridade (…)”

Ler textos como o Satyricon relativiza demais as nossas certezas. Relativiza até nossas alegrias e tristezas. O mundo pagão ainda tem muito a nos ensinar. E, por paradoxal que pareça, talvez seja esta uma mensagem de Páscoa.

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