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Mulher de areia

Luiz Zanin Oricchio

21 Fevereiro 2008 | 10h13

Mulher de Areia, de 1964, é tido como o melhor filme de Hiroshi Teshigahara. Uma das quatro parcerias com o escritor Kobo Abe, pode ser visto como uma fábula existencialista, que evoca o absurdo da vida, a falta de sentido do trabalho e a pequenez do destino humano. Ou, pelo menos, tudo isso salta à vista em uma leitura ocidental da obra.

A história é das mais intrigantes. Um entomologista interna-se numa praia deserta em busca de novas espécies de insetos. Seu maior desejo é descobrir uma delas e ver seu nome associado à descrição científica do animal. Encontra alguns nativos e estes lhe oferecem hospitalidade, que ele aceita de bom grado, pois nada o encanta mais do que viver nas mesmas condições que aqueles homens. Desce por uma escada de corda a uma estranha casa, quase soterrada. A mulher que a habita passa seus dias tentando lutar contra a invasão constante da areia. O homem terá de se unir a ela nesse trabalho, escravo e infinito. Com desdobramentos inusitados.

Aliás, surpreendente é todo o trabalho com o material sonoro e visual. Representante da ‘nouvelle vague’ japonesa (junto com Oshima, Yoshida, Shinoda, entre outros), Teshigahara constrói um universo muito pessoal neste Mulher de Areia. Alegórico, porém nunca hermético, busca a ‘essência’, o real por baixo das aparências, como se trabalhasse em camadas.

Assim, há, por um lado, um aspecto ‘realista’ na maneira como a trama se encaminha. Um homem cai numa armadilha, leva algum tempo para se dar conta de que se tornou prisioneiro e, em seguida, tenta libertar-se. No entanto, sobre essa trajetória linear da história começam a pairar sombras pesadas, por exemplo, no relacionamento paradoxal mantido com a mulher, ora de sensualidade ora de confronto. Toca no absurdo ao expor o lado utilitarista dos aldeões (que precisam da areia retirada do buraco) com o contraponto de um lado perverso – ao observarem a sexualidade do casal confinado. Enfim, o entomologista torna-se inseto antes mesmo de se dar conta dessa inversão.

Claro que aqui temos o cinema oriental em diálogo com o Ocidente. Com o Camus de O Mito de Sísifo (o trabalho inútil e repetido) e Kafka, o escritor-filósofo do absurdo da existência. Como cinema, Mulher de Areia é brilhante.

Serviço

Mostra de Cinema Japonês. CCBB (R. Álvares Penteado, 112, 3113-3651). Hoje, 19 h; amanhã, 13h30. Grátis