Mostra na Cinemateca e entrevista com Olga Futemma
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Mostra na Cinemateca e entrevista com Olga Futemma

Luiz Zanin Oricchio

24 de novembro de 2016 | 09h44

Olga Futemma, coordenadora-geral da Cinemateca Brasileira

Olga Futemma, coordenadora-geral da Cinemateca Brasileira

 

Por razões de espaço, a entrevista com Olga Futemma saiu muito cortada na versão impressa. Abaixo, segue na íntegra, assim como a entrevista com Leandro Pardi, curador da Mostra

 

Chico Buarque, Nara Leão e Maria Bethânia – o trio de ouro está em Quando o Carnaval Chegar, musical político de Cacá Diegues que abre hoje a mostra Clássicos e Raros do Nosso Cinema. Além desse canto de esperança feito em meio à ditadura militar (1972), a mostra apresenta 20 outros títulos “sendo que, deste total, 16 contam com novos materiais confeccionados especialmente para a mostra”, diz Olga Futemma, coordenadora-geral da Cinemateca Brasileira.

Os títulos apresentados abrangem várias fases do cinema brasileiro e foram escolhidos segundo critérios de raridade e relevância histórica. De acordo com o curador da mostra, Leandro Pardi, coordenação de difusão da Cinemateca,  “Privilegiamos filmes que estavam fora de circulação há muito tempo ou sem materiais de exibição satisfatórios – como Capitu, de Paulo César Saraceni, O menino e o vento, de Carlos Hugo Christensen, Paixão na praia, de Alfredo Sternheim, O Cinema Falado, único filme dirigido por Caetano Veloso; Pensionato de mulheres, de Clery Cunha, bastante criticado em seu lançamento”.

A mostra comemora os 70 anos de criação da Cinemateca e o centenário de seu fundador, o crítico Paulo Emilio Sales Gomes. Vai até o dia 17 de dezembro e, antes de encerrar com uma grande festa, dia 3, promove o lançamento do livro Uma Situação Colonial? (Cia das Letras), coletânea de textos de Paulo Emilio organizada por Carlos Augusto Calil.

Esses eventos são como uma grande pajelança para afastar maus fluidos de uma instituição vital para a cultura cinematográfica brasileira, mas que tem passado por maus momentos nos últimos anos. A própria Olga Futemma e vários outros funcionários haviam sido afastados no início da gestão do então ministro Marcelo Calero no MinC. Após manifesto da classe cinematográfica, Futemma foi reconduzida ao cargo. Agora Calero demitiu-se e saiu atirando contra outro ministro do governo Michel Temer, Geddel Vieira Lima, que o teria pressionado para desobstruir um imóvel em Salvador no qual ele teria comprado apartamento. No lugar de Calero, assumiu o deputado do PPS, Roberto Freire. Em meio a essas incertezas e turbulências, Olga Futemma respondeu a perguntas do Estado.   

Entrevista com Olga Futemma

A volta dessa mostra de Clássicos e Raros do Nosso Cinema, depois de dois anos de ausência, sinaliza que as coisas na Cinemateca estão se normalizando?

Este ano a mostra é apresentada com o esforço de toda a (ainda pequena) equipe da Cinemateca Brasileira, no quadro da homenagem ao Paulo Emílio, em parceria com o Instituto de Políticas Relacionais e o patrocínio da Imprensa Oficial. Nas três primeiras edições, tivemos a parceria do Centro Cultural Banco do Brasil.

A mostra sempre foi considerada uma importante forma de unir ações de difusão do cinema brasileiro com iniciativas de preservação – por exemplo, com a confecção de matrizes de preservação e novas cópias de exibição. A curadoria é abrangente e reúne antigos sucessos de público e de crítica, obras raras e de difícil acesso ou mesmo inéditas.

Serão apresentados 21 títulos, sendo que, deste total, 16 contam com novos materiais confeccionados especificamente para a mostra.

É, sem dúvida, um momento de grande alegria para a Cinemateca. Quanto à normalização, dependerá da continuidade, ampliação e aprofundamento dos trabalhos que conseguimos retomar neste ano.

Existe atualmente alguma autonomia da Cinemateca ou ela ainda fica ao sabor das turbulências políticas do momento?

Assim como em qualquer equipamento cultural público, a Cinemateca procura lidar com as turbulências de forma que incidam o menos possível na realização plena de suas atividades.

Agora, por exemplo, o ministro Calero saiu atirando e quem assumiu o MinC foi o Roberto Freire, cujo currículo de gestor cultural desconheço. Como fica para a Cinemateca?

Esta mudança ainda é muito recente. Não tivemos nenhum posicionamento novo. Estamos seguindo nosso plano de trabalho para finalizar, da melhor forma possível, as ações e projetos de 2016. Ao mesmo tempo, tentando desenhar o planejamento dos próximos tempos, em diversos cenários.

No aniversário dos seus 70 anos, a Cinemateca tem o que comemorar?

Claro que sim! Mesmo com todas as dificuldades de mais um ano de vida, devemos reconhecer as conquistas deste ano:

a retomada de alguns fluxos essenciais para preservação do acervo, que haviam sido interrompidos em 2013;

a contratação da pequena equipe de  técnicos especializados (esses contratos têm vigência apenas até o próximo mês, mas esperamos que a implementação do novo modelo de gestão (OS) seja rápida, para que os trabalhos não sofram interrupção);

a realização de mostras que tiveram uma audiência de 46 mil pessoas em 2016;

a retomada de processamentos tanto no acervo audiovisual quanto na documentação correlata;

a remodelagem do site e, dentro dele, a criação de uma linha de informação específica em homenagem ao Paulo Emílio;

e muitas outras conquistas – dentre elas, uma crucial: a certeza de continuar a colaborar na formação de jovens cinematequeiros, condição  de futuro para a instituição.

Nos seus 70 anos de existência, a instituição viveu momentos duríssimos (e, também, momentos luminosos) e aprendeu a perseverar.

Já está funcionando como OS? O que isso implica?

O contrato de gestão com a OS ACERP, que foi selecionada através de um Edital, ainda está em desenvolvimento. Esperamos que, com o empenho do MinC, SAv, ACERP e Cinemateca, o contrato seja firmado antes do final do ano. Trata-se da perspectiva de um modelo capaz de atender às especificidades da Cinemateca.

Nos últimos oito anos, o Conselho da Cinemateca (cuja composição inclui também o Ministério da Cultura, a Secretaria do Audiovisual, o presidente da Ancine e os secretários de Cultura do Estado e do Município) e seus dirigentes vêm discutindo esta alternativa para conferir à instituição uma perspectiva de estabilidade para a necessária continuidade das ações previstas no arco institucional. Da preservação à difusão qualificada do audiovisual (com ênfase no audiovisual brasileiro), passando pelos eixos de conservação, restauração, documentação, catalogação, pesquisa, formação, divulgação e tecnologia, o plano de trabalho de três anos, conforme estabelecido pelo Edital, deverá necessariamente prever a contratação de equipes especializadas nas diversas áreas de atuação da Cinemateca, além da manutenção da infraestrutura conquistada nos últimos anos e a projeção de um plano de sustentabilidade.

Como estão seus serviços de restauro de manutenção de filmes? O número de funcionários e sua qualificação são compatíveis com o que se exige de instituição de tal porte?

Como descrevi acima, neste momento a Cinemateca conta com uma diminuta equipe, porém altamente qualificada, em todos os setores. Esta equipe foi, em grande parte, formada na própria instituição. O número de funcionários, hoje, é insuficiente para enfrentar os desafios apresentados por um acervo com essas dimensões – falamos em 250 mil rolos de filmes e milhões de documentos. Neste ano, pela situação de urgência no salvamento de muitas das obras do acervo, priorizamos as atividades de preservação, mas penso que conseguimos bem equilibrá-las com a difusão (que é constituinte da missão institucional) – e uma das demonstrações desse equilíbrio é, justamente, a Mostra Clássicos e Raros do Nosso Cinema.

Zanin, espero que essas respostas ajudem a formar o quadro que atravessamos neste momento. Se pudéssemos ser econômicos em nossas expressões, eu diria apenas: muita ansiedade, muita esperança.

Agradeço seu apoio permanente à Cinemateca – e reserve o dia 3 de dezembro, para o lançamento do livro Uma situação colonial?, textos de Paulo Emílio com organização do Calil. Estão programadas, também para esse dia, uma sessão sonora de palestra proferida por Paulo Emílio em 1973, no IEB: “O cinema brasileiro na década de 30”; e a projeção de dois curtas (o registro de um encontro de Paulo Emílio com Giuseppe Ungaretti e, também, “Festejo muito pessoal”, realizado por Carlos Adriano especialmente para a homenagem “100 Paulo Emílio”.

Sigamos.

Um grande abraço,

Olga

Entrevista com Leandro Pardi, curador da Mostra

Gostaria de saber quais os critérios de escolha para os filmes a serem apresentados na Mostra.

Os critérios técnicos foram definidos conjuntamente entre as equipes dos setores de preservação e difusão. O que norteou as escolhas de programação foi a relevância histórica e raridade dos filmes, além da disponibilidade de materiais capazes de gerar novos materiais destes títulos. Privilegiamos filmes que estavam fora de circulação há muito tempo ou sem materiais de exibição satisfatórios – como Capitu, de Paulo César Saraceni, O menino e o vento, de Carlos Hugo Christensen, Paixão na praia, de Alfredo Sternheim, O Cinema Falado, único filme dirigido por Caetano Veloso; Pensionato de mulheres, de Clery Cunha, bastante criticado em seu lançamento – e que mereceu artigo de Paulo Emilio Sales Gomes na revista Movimento (A alegria do mau filme brasileiro, set. 1975), no qual afirmava “emana da análise de um mau filme brasileiro uma alegria de entendimento que o consumo da Arte de um Bergman, por exemplo, não proporciona a um espectador brasileiro” – é outra raridade a ser vista.

São filmes cujas cópias de exibição foram recuperadas?

Sim, a cinemateca gerou 16 novos materiais dos 21 títulos apresentados nesta curadoria.

Inclusive, Tristezas não pagam dívidas de José Carlos Burle, é um título que foi considerado perdido por décadas! É uma comédia da qual apenas uma versão mais curta restou. Uma cópia 16mm, do filme originalmente filmado em 35mm, e com cortes, foi localizada pela Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Este material foi escaneado em 2k e será exibido especialmente nesta mostra.

Outro resgate importante é Revezes…, de Chagas Ribeiro, uma raridade do Ciclo do Recife, período de intensa produção pernambucana cuja cópia digital foi obtida através do processamento 2K do original em nitrato tingido em nosso laboratório!

Quais seriam os destaques entre os filmes a serem apresentados, por exemplo em termos de raridade

Além de Tristezas não pagam dívidas e Revezes…, destaco pela raridade – Cuba Novembro 1981 registro inédito achado por Lauro Escorel – um dos diretores – sobre a passagem de artistas brasileiros em um festival de música em Cuba. Nara Leão, Chico Buarque, João Bosco, Sérgio Ricardo, que além dos registros musicais, conversam com moradores da ilha sobre a vida cotidiana, emancipação feminina e educação.

Destaco também pela famosa trilha sonora e pela oportunidade de ver Chico Buarque, Maria Bethânia, Nara Leão, Elke Maravilha e Hugo Carnava atuando juntos na tela grande; o filme de Cacá Diegues – Quando o Carnaval Chegar.

Também – Os Mendigos de Flávio Migliaccio foi raramente exibido nas últimas décadas, é considerado ‘’ a primeira comédia do Cinema Novo’’ e será exibida em versão digital feita a partir do único material sobrevivente do filme. E por fim, pessoalmente também destaco Eternamente Pagú dirigido por Norma Bengell e Noite Vazia de Walter Hugo Khouri em cópia 35mm inédita.

Aproveito para te perguntar sobre a situação geral da Cinemateca. Como ela está funcionando no atual quadro de turbulência política, ou se como Organização Social já goza de certa autonomia econômica em relação ao Minc?

A Olga pode comentar este assunto com mais propriedade do que eu.

Há mais mostras planejadas para um futuro próximo. Entende que a exibição do acervo e consequente diálogo com o público é uma das funções da Cinemateca?

A difusão do acervo da Cinemateca é uma de suas missões institucionais. Ainda nas comemorações dos 70 anos da Cinemateca faremos neste sábado dia 26 uma exibição ao ar livre de uma cópia 35mm do acervo – A paixão de Joana D’Arc de Carl Theodor Dreyer (1928) com o acompanhamento da percussão do Bloco afro Ilú Obá de Min. Em dezembro, o ciclo Jean Vigo, fechando as comemorações do centenário do Paulo Emílio Sales Gomes (iniciadas em setembro).

Nossa intenção para um futuro próximo é que a Cinemateca esteja cada vez mais inserida dentro de um circuito de vivência da cidade. Queremos fortalecer as novas iniciativas de difusão produzidas pela casa como o Cine Parque – quando convidamos a cidade a ocupar nossos jardins com piqueniques e uma programação infantil – e pretendemos voltar com projetos consolidados como o caso da Jornada Brasileira do Cinema Silencioso.

Há planejado para o início de 2017 uma mostra e exposição sobre o cinema erótico brasileiro, Clássicos do cinema italiano, uma nova edição da mostra de Cinema brasileiro contemporâneo, mostras retrospectivas de importantes atores e cineastas brasileiros – cujas filmografias puderam ser recuperadas em iniciativas da Cinemateca – , além de outras programações em parcerias articuladas com instituições culturais ao longo de 2016.